ƒ 10 curiosidades que vão fazer você colocar Catamarca, na Argentina, no seu radar

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10 curiosidades que vão fazer você colocar Catamarca, na Argentina, no seu radar

Se alguém me pedisse, meses atrás, para apontar Catamarca no mapa, eu ia enrolar e provavelmente erraria, já que a província era um verdadeiro ponto cego no meu repertório de viagens. Mas isso mudou durante os 23 dias de fampress pelo noroeste argentino. Foi na breve apresentação, visitando a Casa Catamarca em Buenos Aires, que tive uma noção de para onde estava indo. No entanto, nem toda a teoria daquele encontro na capital argentina me preparou para o que eu conheceria dias depois.  Catamarca tem vulcões de mais de 6 mil metros, uma duna de 1.230 metros, uma Virgem maior que o Cristo Redentor e uma ceramista de 75 anos que me botou para moldar barro. Para situar você nessa Argentina que muitas vezes parece outro planeta, listei dez curiosidades e experiências que tornam essa província um destino completamente surpreendente.








1 | Uma rota que passa por 19 vulcões com mais de 6 mil metros de altitude

A Ruta de los Seismiles é o trecho da Ruta 60 que sai de Fiambalá, a “porta dos Seismiles”, e vai até o Paso de San Francisco, na fronteira com o Chile. São cerca de 200 quilômetros de asfalto, e a altitude sobe de uns 1.500 metros até 4.748. A contagem de vulcões acima de 6 mil metros varia conforme a fonte, mas o número mais citado é 19. Entre eles estão o Ojos del Salado, com 6.893 metros, o vulcão ativo mais alto do mundo, e o Pissis, com 6.793 metros. No caminho aparecem vicunhas, guanacos, flamingos e a Quebrada de las Angosturas. É um percurso impressionante, cheio de nada e tudo ao mesmo tempo, uma paisagem que muda a cada dezena de quilômetros. Um dos passeios mais lindos dessa viagem.

2 | Uma estrada de 300 curvas que virou música

A Cuesta del Portezuelo fica a uns 18 quilômetros da capital, em Valle Viejo, e tem cerca de 20 quilômetros de curvas fechadas. Foi inaugurada em 1939, depois de seis anos de obras, e por muito tempo chamaram de “Camino de la Herradura”, porque antes só passavam cavalos. O visual inspirou a zamba “Paisaje de Catamarca”, de Polo Giménez, uma das mais tocadas do cancioneiro argentino. Do topo, a 1.680 metros, saem parapentes que se misturam aos condores que voam bem perto nos mirantes, homem e bicho voando livres sem muita distinção. Desde o terraço da Hostería Cuesta el Portezuelo, onde fiz uma merienda reconfortante, tem-se uma das vistas mais lindas da região.

3 | Um povoado de mais de 1.500 anos a quatro quilômetros da capital

O Pueblo Perdido de la Quebrada fica na Quebrada del Tala, na Ruta Provincial 4, e guarda os restos da cultura La Aguada, que teve seu auge entre os séculos IV e V. Era um povo de agricultores e ceramistas, com terraços de cultivo nas encostas. As ruínas foram descobertas por docentes e pesquisadores da Universidade Nacional de Catamarca, e hoje há um centro de interpretação, aberto em 2009, e visitas guiadas. A trilha, que no início tem uma subida íngreme, passa por umas 40 estruturas de pedra e barro. Ali tive a oportunidade de provar a tradicional cabeza guateada, um prato típico do interior do norte argentino cujo nome vem do quéchua wathiya, o forno enterrado em que a carne cozinha sob brasas. A carne desmancha, fica absurdamente macia e saborosa. Mais ancestral que isso, só o próprio sítio arqueológico.

4 | Uma Virgem de 52 metros no alto da serra

Perto de El Rodeo fica a Virgen del Valle, inaugurada em setembro de 2024, com 52,42 metros, mais alta que o Cristo Redentor, para você ter uma ideia. A concepção partiu do empresário Walter D’Agostini, em homenagem aos pais imigrantes, devotos da Virgem. É uma iniciativa 100% privada, e o acesso é feito por uma trilha de 6 quilômetros chamada Camino de la Fe. Por dentro da estátua tem uma capela e um mirador, a que se chega depois de vencidos os 117 degraus. A devoção em torno dela tem mais de 400 anos e é uma das mais fortes do noroeste argentino. Na ocasião da minha visita, uma neblina forte encobriu a estátua. Mesmo assim, subi até o topo. A visibilidade era baixíssima, mas tenho fé de que a vista dali é linda.

5 | Uma rota de 300 anos feita de barro, palha e esterco

A Ruta del Adobe liga Tinogasta a Fiambalá em cerca de 50 quilômetros pela Ruta 60. Era um caminho comercial importante para a Bolívia e o Peru, e por isso sobraram tantas construções antigas, todas de adobe, com telhados de cana sustentados por vigas de algarrobo. Em Anillaco está a joia da rota, a capela Nuestra Señora del Rosario, de 1712, considerada a igreja mais antiga ainda de pé de Catamarca, com altar de barro, parece saída diretamente de um cenário do Auto da Compadecida. Linda. Em Copacabana fica a Iglesia de Nuestra Señora de La Candelaria, construída no início do século XIX, que se destaca pelas paredes de adobe pintadas de cor-de-rosa, trazendo muita personalidade à edificação. A rota termina onde começa a dos Seismiles.

6 | Uma ponte pênsil sobre o rio que abre as portas do deserto

O Ecoparque Andoluca, também chamado de Andalucas, fica na localidade de Copacabana, a cerca de 30 quilômetros de Tinogasta, bem na beira da Ruta 60. O seu principal atrativo é uma ponte pênsil que cruza o leito do Rio Abaucán, que naquele trecho é conhecido como Río Colorado. Fui até lá sem saber muito o que encontrar e o lugar funcionou como o meu primeiro contato real com a natureza imponente e com o chão árido de Catamarca. Olhar para a imensidão seca ao redor me deu a exata dimensão do isolamento andino e da beleza crua que a província guarda.


7 | A duna mais alta do mundo

A Duna Federico Kirbus, no Bolsón de Fiambalá, tem 1.230 metros de altura, medidos da base, a 1.611 metros, até o topo, a 2.845. São cerca de 300 metros mais alta que a segunda colocada, a Duna Grande, no Peru. O nome é uma homenagem ao jornalista Federico Kirbus, que divulgou a descoberta. As Dunas de Tatón, onde ela fica, foram parte do Rally Dakar em várias edições entre 2009 e 2016. Mais perto da cidade ficam as chamadas Dunas Mágicas, famosas pelas areias finas e brancas. Vinda do Brasil, onde duna é algo que a gente associa imediatamente à praia, eu nunca imaginei encontrar um cenário daqueles tão longe do mar. É uma paisagem impressionante, com um mar de areia branca cercado pelo contorno escuro das montanhas da cordilheira. 

8 | Uma cachoeira no fim da Quebrada de Las Higueritas

Perto de Tinogasta, a cerca de 15 quilômetros do centro da cidade, fica um verdadeiro refúgio para quem gosta de caminhadas. O trekking pela Quebrada de Las Higueritas acompanha o leito do rio em um trajeto de aproximadamente 8 quilômetros de ida e volta. A trilha, relativamente fácil, avança entre paredões avermelhados e amarelados, passando por pequenas vertentes de água e vegetação nativa, até alcançar uma bela cachoeira com cerca de 20 metros de queda livre, o ponto perfeito para descansar e se refrescar. Ao final, fomos convidados a agradecer à Pachamama, a Mãe Terra, pela oportunidade de fazer uma visita em segurança e conhecer um pouco mais das maravilhas naturais dessa região especial da Argentina. Emocionante. 

9 | Cerveja artesanal de deserto

Na Quinta Santo Domingo, em Tinogasta, a cervejaria Pata Pila faz cervejas artesanais que vão de estilos tradicionais como IPA e Stout até receitas exclusivas feitas com frutos locais, como o chañar. O projeto foi criado por Juan Andrés Isaía em 2014 e o nome foi inspirado no Mikilo, um personagem mitológico catamarqueño. No pátio ao ar livre, a degustação acontece ao lado de um forno tradicional, que assa pizzas na lenha bem na frente dos visitantes. Eu adorei a cerveja escura deles, encorpada, com bom aroma que remete ao café e um amargor na medida certa, foi uma excelente companhia para uma pizza recém saída do forno. Quem diria que, na terra dos vinhos de altitude, encontraríamos cerveja artesanal da melhor qualidade?

10 | Barro que vem dos cerros e vira panela

No ateliê Madre Tierra, em Tinogasta, Ramona Quispe, a Ramonita, de 75 anos, vai com os filhos até os cerros buscar a argila. Algumas terras vêm duras como pedra e ficam dez dias de molho. Depois passam por coadores e por um filtro de pano, até virar uma massa finíssima, assada por até quinze horas em forno a lenha. A natureza dali dá argila branca, vermelha, amarela e rosa, e guarda a rara argila preta para os picos mais altos dos Andes. Ramonita faz sobretudo panelas e utensílios, e garante que as comidas e bebidas ficam com outro sabor quando tocam o barro. Fui convidada a moldar a própria peça, e a sua história de força e ancestralidade mexeu tanto comigo que ela virou uma das grandes personagens do meu texto especial sobre as mulheres do norte argentino.

Depois de sete dias percorrendo as estradas de Catamarca, sentindo os efeitos da altitude e enfrentando vento, frio e sol, comecei a entender o que minha amiga argentina, Debora, quis dizer quando chamou a província de joia bruta. Catamarca não é um destino que se explica facilmente nem uma província que se adapta às expectativas de quem chega. Suas paisagens e suas distâncias impõem outro ritmo e outra perspectiva às coisas. Antes de partir, eu mal sabia localizar Catamarca no mapa da Argentina. Voltei com histórias, lugares e personagens que me fizeram entender por que essa província merece um lugar no roteiro de quem quer conhecer outras facetas do país.

Mais informações: Turismo Catamarca | @visitcatamarca

❗❗❗O Raphanomundo viajou para a Argentina a convite da OMPT para participar do maior fampress do jornalismo turístico da história.
Rapha Aretakis

Viajante e criadora de conteúdo em tempo integral. Escrevo, edito e fotografo o Raphanomundo desde 2010, com trabalhos para marcas e veículos de turismo. Nascida no Recife, criada para o mundo, hoje brasileira alemã.

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