ƒ Ishbiliya, o nome árabe que a Espanha nunca esqueceu

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Ishbiliya, o nome árabe que a Espanha nunca esqueceu

Há lugares que existem em camadas. Sevilla é um deles. Você caminha pelo centro histórico achando que está na Espanha e, de repente, algo te desorienta. Não de forma desconfortável, mas daquele jeito que faz você parar e olhar de novo. Um arco, um pátio, um azulejo. Uma geometria que você já viu antes, mas não aqui. Não neste continente.

Foi dentro do Real Alcázar de Sevilla que esse estranhamento chegou com mais força. Percorrer aqueles salões é ter a nítida sensação de estar em dois lugares ao mesmo tempo. As paredes com arabescos, os tetos de estuque (gesso trabalhado), os jardins com fontes e laranjeiras. Tudo aquilo eu havia visto no Marrocos, na Jordânia, no Egito. Estava ali, no coração da Europa, preservado, restaurado, celebrado como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO

Real Alcazar de Sevilla: oito séculos de história

Dentro do Alcazar fica difícil lembrar em qual continente você está

Azulejos que resistiram não só ao tempo

As Setas são um convite ao respiro 

A inevitável pergunta veio imediatamente: como é que a Europa aprendeu a amar tanto essa cultura em pedra, e tem tanta dificuldade de reconhecê-la em pessoas?

Sevilla não é um nome espanhol, é a versão latinizada de Ishbiliya, como os árabes chamavam a cidade quando ela era uma das capitais mais sofisticadas do mundo islâmico medieval. Por mais de quatro séculos, entre 711 e 1248, Al-Andalus floresceu aqui. Não como ocupação, mas como civilização. Com bibliotecas, poesia, medicina, astronomia e uma convivência entre muçulmanos, cristãos e judeus que a Europa cristã da época, onde intolerância religiosa era regra, mal conseguia imaginar. 

Quando a reconquista cristã chegou, apagou o que pôde. Mas não conseguiu apagar tudo. A Grande Mesquita virou catedral, mas sua torre ficou. A La Giralda, com seus 94 metros, é hoje o símbolo mais reconhecível de Sevilla. Cartão postal, ícone, marca registrada. Mas ela foi construída no século XII como minarete. Era de lá que o chamado à oração ecoava pela cidade. Acredito que esse detalhe raramente apareça nos guias turísticos com o peso que merece. 

Água, verde, silêncio e história no coração de Sevilla

Linguagem geométrica que viajou do Oriente Médio até Andaluzia

A Giralda tem mais de uma história pra contar

Técnica, história e herança que sobrevivem ao longo de séculos

E não é só a arquitetura que carrega essa memória plural. O Flamenco, talvez a expressão cultural mais associada à identidade espanhola no imaginário mundial, também nasceu dessa mistura. Atravessamos a ponte sobre o Canal de Alfonso XIII e fomos até Triana, o bairro historicamente ligado ao flamenco e berço de muitos dos seus grandes nomes, para assistir a um espetáculo no Teatro Flamenco Triana. O que se vê ali não é folclore para turista. É uma forma de arte que carrega no corpo a memória de culturas que se encontraram nessa mesma terra, influências ciganas, árabes, judaicas e mouriscas. O flamenco não se explica, se sente. E em Sevilla, sentir é poder entender de onde ele vem. 

As vitrines e fachadas de Sevilla não nos deixa esquecer que estamos no berço do Flamenco

O interior do Matacandela e Sevilla na mesa

Depois do espetáculo, paramos na curiosa Taberna Cofrade Matacandela, um desses lugares que fazem parecer que você está em um mundo paralelo. Ligada às irmandades religiosas que organizam a Semana Santa sevilhana, a taberna condensa outra camada da cidade, o catolicismo popular, que toma as ruas toda primavera com imagens sacras, túnicas e música quase sombria. A Semana Santa de Sevilla chama atenção pela fé coletiva, rituais e identidade. Ela existe numa cidade cuja alma foi moldada por séculos de islã. E essa combinação não é contraditória, é apenas Sevilla sendo Sevilla.

A cidade também sabe que não pode viver só do passado. Na Plaza de la Encarnación, uma estrutura completamente fora do comum chama atenção antes de o cérebro processar o que seus olhos estão vendo. O Metropol Parasol, inaugurado em 2011 e projetado pelo arquiteto alemão Jürgen Mayer, é uma das maiores estruturas de madeira do mundo. Inspirada em formas naturais, ela é orgânica e sinuosa, fazendo com que os sevilhanos a chamem de Setas, cogumelos em espanhol. 

Aqui, pode-se dizer que Sevilla absorve o contemporâneo sem perder de vista o que veio antes. 

Metropol Parasol: quando Sevilla decide ser contemporânea, acerta muito


A Plaza de España fecha esse ciclo de camadas com uma grandiosidade quase opressora. Construída para a Exposição Ibero-Americana de 1929, seu formato semicircular foi pensado como gesto simbólico: a Espanha abraçando as nações que um dia colonizou. Os bancos de azulejos, cada um representando uma província espanhola, convidam a uma caminhada lenta, de olhos atentos. Mas o que chama atenção, para quem chega ali depois do Alcázar e da Giralda, como chegamos, é perceber que a própria estética da praça bebe na mesma fonte árabe e mourisca que a cidade nunca largou. Até na sua grande declaração de identidade nacional, Sevilla recorreu à herança que teoricamente havia superado. 

Plaza de España em toda sua grandiosidade calculada

Detalhes que muita gente pode passar sem ver

Estuque é gesso trabalhado à mão, uma técnica que sobreviveu a tudo


É difícil caminhar por tudo isso sem pensar no que acontece do lado de fora. A Europa que preserva o Alcázar é a mesma Europa que debate, eleição após eleição, o que fazer com as pessoas que carregam essa cultura viva no corpo, na língua, na fé. A mesma Europa que enche de turistas os pátios mudéjares no verão fecha as fronteiras no inverno. Que consome a estética, a culinária, a geometria dos azulejos, mas estranha o véu na escola, o sotaque no metrô, o nome "difícil de pronunciar".

Não é uma contradição exclusivamente espanhola. É europeia. Mas Sevilla a torna particularmente visível, porque ali o passado não está escondido em museu. Está na rua, na arquitetura, no próprio nome da cidade. Ishbiliya. Um nome árabe que sobreviveu à reconquista, à inquisição, aos séculos. E que está em cada guia turístico sem que quase ninguém pare para perguntar o que ele significa.

Talvez seja essa a maior vocação de Sevilla, guardar a memória que o continente tenta esquecer. E faz isso sem alarde, sem precisar de placa explicativa. Basta caminhar. Basta olhar. Basta, de vez em quando, se perguntar de onde vem o nome das coisas.
Rapha Aretakis

Viajante e sonhadora em tempo integral. Edito, escrevo e fotografo para o Raphanomundo desde 2010. Nascida no Recife, criada para o mundo, vivendo na Alemanha.

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