A primeira obra de arte que vi em Covilhã nem precisou de mapa. Desci do Uber, olhei pra cima e lá estava ela pintada na parede do
Passo 100 Pressa, alojamento onde fiquei hospedada. Uma mulher sentada numa máquina de costura, rodeada por tesouras enormes, alfinetes e tecidos que pareciam se misturar com a parede. Tirei a foto na hora, sem saber ainda que aquela cena tinha tudo a ver com a história do lugar.
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| Mural de Covilhã |
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| Covilhã, galeria a céu aberto em Portugal |
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| Coruja, arte emblemática do ativista português Bordalo II |
Quem me acompanha no Instagram (
@raphanomundo) viu que eu passei os últimos dias cruzando o interior de Portugal de ônibus. Depois de já ter explorado boa parte da costa portuguesa, tanto de carro quanto com transporte público, resolvi fazer uma viagem diferente e conhecer uma faceta do país que costuma ficar fora dos roteiros mais tradicionais. Saindo de
Lisboa, o caminho passou por
Tomar,
Castelo Branco,
Covilhã,
Guarda,
Belmonte,
Viseu,
Aveiro e, por fim,
Porto. Definitivamente, uma experiência em outro ritmo, sem a correria dos grandes centros turísticos e com tempo para descobrir cidades que muita gente simplesmente atravessa sem parar.
❗Use o cupom RAPHANOMUNDO e ganhe 10% de desconto na sua compra ❗ E de todas as cidades do trajeto, a maior surpresa foi Covilhã. Eu imaginava um lugar interessante por ser uma cidade universitária e pela ligação íntima com a
Serra da Estrela. O que eu não esperava era que ela entraria pra minha lista de lugares favoritos por outro motivo: o centro histórico inteiro funciona como uma galeria a céu aberto. Em praticamente qualquer direção que se olha, existe uma obra esperando pra ser descoberta. Algumas ocupam fachadas inteiras e dominam a paisagem. Outras aparecem discretamente em becos, escadarias e muros que muita gente passaria sem notar.
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| Mural Wild Orphan da artista portuguesa Tamara Alves |

O grande responsável por essa transformação atende pelo nome de
WOOL. Criado em 2011, o festival nasceu com o objetivo de tratar a arte urbana não só como decoração, mas como ferramenta de reabilitação urbana e de aproximação entre a comunidade e seu próprio território. A ideia sempre foi despertar o interesse da comunidade pela cultura, homenagear o território como forma de redescobrir sua identidade e envolver os moradores nas intervenções, para que as sintam como suas. O reconhecimento veio em forma de prêmios e selos institucionais: desde 2015, o WOOL carrega o
selo de qualidade EFFE, da
European Festivals Association, e em 2023 o
Ministério da Cultura português reconheceu o festival como
Projeto de Interesse Cultural.
O nome faz referência à lã, atividade que durante séculos movimentou a economia local e moldou a vida de gerações de moradores, como a mulher pintada na parede da minha hospedagem, a "At Work", da artista espanhola Cinta Vidal, pintada em 2022, era na verdade um retrato direto desse passado. E quando entendi isso, a imagem ganhou outro significado.
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| O início de tudo: a ovelha que fornece a lã para Covilhã tecer sua economia |
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| Tradição e modernidade lado a lado: azulejo português e arte de rua |
Visitar Covilhã pareceu como entrar numa caça ao tesouro. É preciso, de antemão, estar preparado para caminhar. Você sobe uma ladeira olhando pra uma igreja e termina encontrando um retrato gigantesco pintado na lateral de um edifício. Segue por uma rua estreita cercada de casas de pedra e percebe uma intervenção que muda completamente a atmosfera do lugar. Definitivamente a localização dos murais ditou a rota da minha visita. Sugiro que você faça o mesmo e se permita uma exploração sem roteiro fechado, já que não existe um único ponto que concentre as obras. Elas estão distribuídas por diferentes áreas, obrigando quem visita descobrir a cidade aos poucos. E isso faz toda a diferença.
❗Use o cupom RAPHANOMUNDO e ganhe 10% de desconto na sua compra ❗ Foi assim, sem procurar, quase que sem querer que encontrei um mural do Millo. Eu estava indo na direção de outro mural, da artista Daniela Guerreiro, de 2020, quando vi de longe, na Rua da Senhora da Paciência, um traço que reconheci na hora. Inconfundível. Eu sabia que Millo tinha pintado em Covilhã, tinha visto o post no Instagram anos atrás, mas tinha esquecido completamente. Parei, tirei fotos, fiz selfie. Descobri depois que o mural era de 2024 e falava sobre paz, com um aperto de mãos que remete à foto histórica de Arafat e Rabin, representado como um fio costurado dentro de um tecido. Mais uma vez, a lã virando linguagem pra contar outra história.
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Weaving Peace, mural de 2024 pintado para o WOOL, pelo artista italiano Millo
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| Mural feito pelo coletivo espanhol Boa Mistura para o festival de arte urbana WOOL |
Antes de saber qualquer coisa sobre a história da lã, Covilhã já tinha começado a me contar a sua história. No último dia, ao ir embora, passei de novo pela mesma street art do começo da viagem, mas dessa vez já sabia que a cena representava gerações de gente que viveu da tecelagem, antes que a lã virasse matéria-prima pra outro tipo de trabalho, o da arte de rua. Da primeira vez eu só fotografei a parede. Da segunda, finalmente entendi o que estava vendo.