ƒ Hospedagem em Lisboa: testei a Numa Lisbon Anjos

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Hospedagem em Lisboa: testei a Numa Lisbon Anjos

Em meados de janeiro deste ano passamos mais uma vez por Lisboa e, dessa vez, decidimos testar a hospedagem no Numa Lisbon Anjos, uma das unidades da rede europeia Numa na cidade. Foi pesquisando essa hospedagem específica que descobri a rede. Até então, nesse modelo de aparthotel tech-driven, eu só conhecia a alemã Limehome. Fiquei curiosa para entender de perto o que torna esse tipo de hospedagem tão popular entre quem viaja a trabalho ou passeio, e já adianto que a Numa não decepcionou nessa curiosidade, mas levantou questões.

A unidade Numa Lisbon Anjos fica no bairro de Anjos, uma região que vem se consolidando como point criativo e gastronômico da capital portuguesa, com cafés, restaurantes pequenos e um mercado por perto. A estação de metrô de Anjos fica a poucos minutos a pé, o que facilita bastante para chegar ao centro histórico de Lisboa sem depender de carro. 


Check-in sem balcão, sem fila e sem chave

A primeira coisa que chama atenção na Numa é que não existe recepção tradicional. Todo o processo, do check-in ao check-out, é feito pelo aplicativo, você recebe um código para acessar o prédio e o apartamento, sem precisar carregar chave ou esperar ninguém te atender. Talvez para aqueles turistas que não são muito acostumados à tecnologia isso seja uma desvantagem. Mas, no geral, é um processo rápido e sem muita complicação. Caso surja algum imprevisto, o suporte da Numa responde pelo próprio app ou WhatsApp, 24/7. 





Um mini apartamento em Lisboa

O que mais gostei na Numa Lisbon Anjos foi o tamanho do estúdio. Diferente da maioria dos hotéis da cidade, onde os quartos costumam ser compactos, aqui tivemos uma suíte espaçosa (Large studio with Kitchenette), com direito a uma mini cozinha equipada (fogão, micro-ondas, frigobar, cafeteira e pia) e uma decoração moderna, com um toque de design que deu um charme a mais a essa hospedagem de pegada mais contemporânea. No frigobar, encontramos duas cervejas locais de cortesia esperando por nós, um mimo simples, mas que faz diferença na percepção de se sentir bem recebido logo na chegada. A cama era queen-size confortável, no banheiro tinha secador de cabelo e amenities (shampoo, condicionador, sabonete líquido e hidratante). 


  




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Quem está por trás da Numa

Depois dessa minha experiência, como jornalista de turismo, fui atras de informações sobre sobre o grupo e descobri que a Numa Group foi fundada em Berlim, em 2019, por Christian Gaiser, Dimitri Chandogin, Gerhard Maringer e Inga Laudiero, com a proposta de criar um serviço totalmente digitalizado que combina as vantagens de um hotel tradicional (qualidade garantida, licenças, atendimento 24 horas, guarda-volumes) com o conforto e a flexibilidade de plataformas de aluguel por temporada como Airbnb, oferecendo quartos maiores com cozinha, localização central e comodidades que lembram a própria casa. O lema da marca resume bem a proposta: we do the room, you do the city. Traduzindo para o português, eles cuidam do apartamento, você cuida de explorar a cidade.

De lá para cá a empresa não parou de crescer. Em 2023, a Numa levantou 59 milhões de dólares em uma rodada de investimento alcançando na época 1,5 bilhão de euros em ativos imobiliários sob gestão e mais de 4.500 quartos e apartamentos espalhados por 28 grandes cidades europeias. Berlim, Munique, Roma, Milão, Barcelona e Paris estão entre os destinos onde a marca está presente e os mais procurado, segundo o site.

Recentemente, essa expansão ficou ainda mais evidente em Lisboa porque a Numa adquiriu a Lisbon Serviced Apartments (LSA), ampliando o portfólio da marca para mais de 11 mil unidades e somando 21 propriedades ao portfólio português, em localizações como Chiado, Príncipe Real, Alfama e Avenida da Liberdade. Ou seja, a Numa Lisbon Anjos é só uma entre várias opções que a marca já tem espalhadas pela cidade.

Uma reflexão (ou uma mea culpa)

Preciso ser sincera sobre uma coisa antes de fechar esse texto, porque contar essa experiência boa também me deixa um pouco pensativa.

Sei que a Numa não é a mesma coisa que um Airbnb tradicional (modelo de hospedagem que já não faz mais sentido para mim) eles não estão pegando apartamento por apartamento do mercado residencial, e sim operando sob licença de tipo hoteleiro, em prédios comprados ou convertidos inteiros para uso turístico. É algo que até soa mais "regulado", menos predatório do que o modelo de Alojamento Local que Lisboa vem tentando conter. Mas basta olhar pra aquisição da LSA que mencionei aí em cima pra perceber que a coisa não é muito diferente, são 19 prédios inteiros, de uma vez só, deixando de ser (ou nunca chegando a ser) moradia num punhado de bairros centrais de Lisboa. E isso num bairro como Anjos, que ainda é bem mais popular e menos turístico do que Bairro Alto ou Chiado.

O fato de eu ter dormido bem, achado tudo massa e ainda ganho cerveja de cortesia não anula que, ao escrever um post assim, eu também viro parte de um ciclo que ajuda a normalizar esse tipo de expansão. Cada review bem-humorado como esse é, de certa forma, propaganda gratuita para um modelo de negócio que compete diretamente com moradores locais pelos mesmos imóveis, numa cidade onde encontrar aluguel acessível já é cada vez mais difícil para quem vive ali o ano inteiro, não só quatro dias em janeiro.

Seria ótimo ter a resposta pronta de como equilibrar isso, mas cada vez mais tenho me questionado sobre esse modelo de hospedagem. E, sempre que possível, tenho me hospedado em hotéis. Mas não é novidade para ninguém que gosto de viajar, gosto de testar hospedagens diferentes, e vou continuar fazendo o meu trabalho. No entanto, é importante nomear o incômodo, em vez de fingir que hospedagem nesses moldes existe sem custo nenhum para a cidade que a gente visita. 

Saio da Numa Lisbon Anjos com duas certezas que não se excluem: foram boas noites de sono, achei tudo lindo, mas vou continuar de olho em como Lisboa (e outras cidades que amo) vão lidar com esse tipo de hospedagem daqui pra frente. Por enquanto, sigo escolhendo hotéis sempre que dá. Mas registrar essa experiência, com todos os "poréns" que vieram junto, também é parte do meu trabalho aqui no raphanomundo. 

Rapha Aretakis

Viajante e criadora de conteúdo em tempo integral. Escrevo, edito e fotografo o Raphanomundo desde 2010, com trabalhos para marcas e veículos de turismo. Nascida no Recife, criada para o mundo, hoje brasileira alemã.

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