O meu passeio no Tren Solar de la Quebrada terminou em Maimará, uma das paradas do percurso do primeiro trem solar da América Latina. A composição para em frente ao cartão-postal da região, a Paleta del Pintor, que eu mal sabia, mas veria muito mais de perto ao longo do dia. Mas ali, desde a estação, a vista já era impactante o suficiente. Cheguei a Maimará sem saber muito bem o que esperar. A única coisa que eu sabia é que a ONU Turismo havia eleito o povoado, em 2025, um dos melhores vilarejos turísticos do mundo, no prêmio Best Tourism Villages, disputado por mais de 270 povoados de 65 países. Um título que os moradores carregam e difundem com muito orgulho, e que eu entendi rapidinho o motivo.
💡 Dica direta, se eu pudesse voltar, reservaria pelo menos duas noites em Maimará. O povoado rende muito mais do que as poucas horas que a maioria dos viajantes dedica a ele.
Aproveitei tudo o que fiz durante esse meio dia em Maimará e separei cinco programas para você fazer por lá.
Visitar o Centro de Interpretación Geológica y Paleontológica Huellas de Maimará
Essa foi a nossa primeira parada, porque convenientemente, o centro está dentro da própria estação do trem. O espaço novinho, inaugurado esse ano, guarda peças originais encontradas na região da Paleta del Pintor, entre elas restos de um hadrossauro, um filhote de titanossauro, um ovo de abelissauro, estromatólitos que dá para tocar, e a própria pegada fóssil descoberta em 2002 por geólogos de Jujuy e Salta. O percurso é autoguiado e interativo, pensado tanto para adultos quanto para crianças. Funciona de segunda, terça, quinta, sexta, sábado e domingo, das 10h às 18h, e fecha às quartas.
Passear pelo Mercado municipal de Maimará
Também nas imediações da estação, o mercado é o mais próximo que chegamos do ritmo da vida real. Vendedores locais, com seu artesanato, produtos regionais e comidas típicas, a vontade que dá é passar horas observando o movimento. Foi ali que tive um dos encontros mais bonitos do dia. Um senhor me viu com a câmera em punho e me chamou, todo orgulhoso, para fotografar um azulejo na parede de uma casa, onde estava escrita uma poesia do poeta maimareño Jorge Calvetti, nascido ali em 1916 e uma das grandes vozes da literatura argentina do século 20. Os versos diziam algo como "vengo a buscarlo todo y buscarme". Uma frase que me acompanhou pelo resto do dia, junto com a lembrança daquele senhor e da história por trás daqueles versos. Maimará, apesar da altitude, é uma delícia de ser percorrida a pé. É a típica cidadezinha onde microcenas do cotidiano acontecem a cada esquina. Ande sem rumo, sem tempo e sem destino e deixe-se maravilhar com a beleza do ordinário.
Almoçar com vista no Maima Café Resto Bar
Na avenida principal de Maimará, o Maima Café Resto Bar é quase parada obrigatória de quem passa pela Quebrada de Humahuaca. Esse restaurante tem um pátio externo projetado estrategicamente com vista direta e sem obstruções para a Paleta del Pintor, que vira o cenário do seu almoço. Bom, pelo menos foi do meu. No cardápio, empanadas, carne de lhama (sim, comi) e muita quinoa. Não deixe de provar, pelo menos, o Flan de Quinua com Dulce de Leche, admirando aquele gigante colorido que é o cartão-postal de Maimará.
Passear de caminhão turístico até a Paleta del Pintor
Para ver de pertinho a formação que te recebeu lá da estação, dá para fazer um passeio de caminhão panorâmico que atravessa a ponte sobre o rio Grande e sobe até os melhores ângulos da Paleta del Pintor. O tour da agência local, Kaypacha, nos permitiu conhecer Maimará de outros ângulos, indo além da paisagem que já chama a atenção de quem chega ao povoado. Além do grande atrativo, a Paleta del Pintor, passamos também pelo cemitério do povoado, que é aberto, sem muros, no alto de uma colina, e é como se a lógica ali fosse simples, quanto mais perto do céu, melhor. A paisagem se integra tão bem que, por um instante, quase não percebemos que aquilo era um cemitério. Eu adorei a experiência do tour em caminhão, sem dúvida uma forma no mínimo inusitada de explorar e ver Maimará.
Degustar vinhos de altitude na Bodega y Viñedos Jesús Vilte
E para fechar no alto, com o perdão do trocadilho, meu primeiro contato com vinhos de altitude. Não surpreende que Maimará também seja terra desse tipo de vinho, e a Bodega Jesús Vilte é uma das bodegas mais conhecidas da região, um empreendimento familiar que produz o malbec Molino de Chicapa, cultivado a mais de 2.300 metros. Carmen Susana Cruz, que nos recebeu, se mostrou uma mulher forte, de vasto conhecimento e com muita resiliência para levar adiante uma vinícola de sucesso e a criação dos seus cinco filhos. Fizemos uma degustação generosa, com vista para a inevitável Paleta del Pintor. As visitas e degustações precisam ser combinadas antes, por telefone ou e-mail, então já saia de casa com isso resolvido.
No fim das contas, Maimará foi uma daquelas surpresas boas de viagem, daquelas que fazem a gente querer desacelerar e ficar mais um pouco. Cheguei sem grandes expectativas e fui embora com a sensação de que havia muito mais para descobrir. Entre paisagens que impressionam, histórias que se revelam pelo caminho, boa comida e vinhos de altitude, o povoado me conquistou justamente por tudo aquilo que vai além do cartão-postal. Se pudesse voltar, reservaria pelo menos duas noites por ali. Porque Maimará não é apenas uma parada bonita na Quebrada de Humahuaca, mas sim um lugar que merece ser vivido sem pressa.
❗❗❗O Raphanomundo viajou para a Argentina a convite da OMPT para participar do maior fampress do jornalismo turístico da história.














