De todos os passeios que fiz no norte da Argentina, ouso dizer que Salinas Grandes foi um dos mais bonitos, se não o mais bonito de toda a viagem. Foi minha primeira vez pisando em um salar, e eu simplesmente amei cada segundo. A imensidão branca, em contraste com o azul intenso do céu e a sensação de estar em um lugar tão diferente de tudo o que já tinha visto fizeram dessa uma experiência algo muito especial.
A estrada até o salar
Mas primeiro, deixa eu contar como faz para chegar ao Salinas Grandes. Saindo de Huacalera, do maravilhoso hotel que nos hospedamos, foi preciso atravessar a Cuesta de Lipán, uma estrada de curvas fechadas que sobe até mais de 4.000 metros de altitude. A paisagem muda a cada curva, e a sensação de estar tão alto, acima das nuvens, entre montanhas coloridas e um céu impossivelmente azul, já vale a viagem por si só. Fizemos uma breve parada no marco dos 4.170 metros acima do nível do mar, ponto mais alto da estrada e seguimos rumo à salina.
Confesso que estava um pouco temerosa com a altitude. Afinal, era meu primeiro contato com altitudes tão elevadas, e não sabia como meu corpo reagiria. Já tinha ouvido falar bastante sobre o mal de altura, também conhecido como apunamiento ou soroche, e estava atenta a qualquer sinal de desconforto. Mas, surpreendentemente, não senti absolutamente nada, nem dor de cabeça, nem tontura, nem falta de ar. Foi um alívio e, ao mesmo tempo, uma grata surpresa, constatar que meu corpo me permitiu aproveitar ainda mais cada momento dessa viagem.
E que viagem, amigos, daquelas em que a gente tem vontade de parar a cada poucos quilômetros para admirar a paisagem e fotografar. As montanhas vão ganhando formas e tonalidades, enquanto a estrada corta a cordilheira, revelando cenários que os olhos custam a acreditar. À medida que o tempo passa, a expectativa de finalmente chegar ao salar também cresce. E quando a paisagem branca começa a surgir no horizonte, é difícil não ficar impressionada.
O salar
Salinas Grandes está a 3.450 metros de altitude, entre as províncias de Jujuy e Salta, no noroeste da Argentina, e ocupa uma área de 212 km². Ao lado do Salar de Uyuni, na Bolívia, e do Salar de Atacama, no Chile, integra as impressionantes paisagens de sal da região andina, que abrigam alguns dos maiores salares do mundo. Sua origem remonta a um período de 5 a 10 milhões de anos atrás, quando a bacia se encheu de águas salgadas de origem vulcânica, que foram evaporando aos poucos e formando essa crosta branca, hoje com cerca de 30 cm de espessura.
O fato é que nenhuma explicação sobre a formação geológica do salar prepara a gente para a sensação de estar ali. Foi a primeira vez que pisei em um deserto de sal, e confesso que fiquei completamente encantada com a paisagem. Por todos os lados, uma imensidão branca que se estende até encontrar as montanhas ao fundo. O horizonte é tão aberto que, em alguns momentos, é difícil ter uma noção real da dimensão daquele lugar.
Cheguei lá sem vento nenhum, e o sol, refletindo diretamente no sal branco, provocava um calor surpreendente, quase como se estivesse em uma praia do Nordeste brasileiro, sem sombra alguma. É engraçado imaginar essa sensação a mais de 3.000 metros de altitude, no meio do altiplano, mas foi exatamente assim. Um calor fora do comum, que me fez lembrar que, mesmo em lugares de temperaturas mais amenas, a exposição ao sol pode ser bastante intensa.
Ainda assim, foi impossível não ficar maravilhada com os desenhos geométricos que o sal formava no chão. De pertinho, a superfície revela uma infinidade de polígonos, com linhas que se cruzam e criam padrões quase perfeitos. É curioso observar como uma paisagem aparentemente tão uniforme pode guardar tantos detalhes. Entre uma caminhada e outra, eu me pegava olhando para o chão, admirando as formas, e depois levantando os olhos para tentar absorver novamente toda aquela imensidão ao meu redor. É surreal como um deserto pode te fazer prestar atenção em tanta coisa ao mesmo tempo.
Um de sal, a gente imagina, deveria ser um lugar frio, isolado, talvez até inóspito. Mas, naquele dia, encontrei um cenário de céu azul, sol forte e um silêncio quase absoluto, sem vento nenhum e fiquei parada ali por um instante, sozinha em meio a tanto branco, e pensei na distância que percorri para chegar até aquele ponto exato do mapa, saindo do outro lado do Atlântico, e em como, naquele momento, meu corpo simplesmente respondia, sem reclamar, depois de tanta estrada e tanta altitude. Definitivamente, é um daqueles lugares em que dá vontade de simplesmente parar e ficar ali, sem pressa, só respirando, agradecida.
O Pristine Camps
De lá, o passeio seguiu para o Pristine Camps Salinas Grandes, o primeiro glamping de luxo dessa parte da Argentina, inaugurado em 2021 dentro do próprio salar. As suítes são instaladas em domos, que ficam sobre plataformas de madeira elevadas, para não agredir o solo, e toda a operação funciona com energia renovável. Infelizmente, não passei a noite lá, mas fiquei com muita vontade.
Conheci as instalações, constatei que os domos proporcionam todo o conforto necessário para uma boa e segura noite de sono em pleno deserto de sal, e almocei no restaurante, que serve um menu fine dining harmonizado com vinhos de bodegas da região. No cardápio, vacio cozido à baixa temperatura em cama de humita, e a humita, essa sim, foi uma das melhores que comi em toda a viagem. De sobremesa, um curd de limão com crocante e frutas frescas, que se distanciava um pouco dos sabores andinos do prato principal, mas que fazia todo sentido dentro da proposta contemporânea do menu.
Um detalhe que me chamou atenção foi a mudança brusca do clima. Lá no salar, sem vento nenhum, o calor era daqueles castigastes. Mas assim que cheguei ao glamping, os ventos ficaram fortíssimos, segundo registros, chegaram a 75km/h, típicos da Puna, que muda de humor em minutos.
Fica a vontade e a promessa para uma próxima vez, de explorar ainda mais o salar e, principalmente, de passar uma noite no Pristine e poder observar o céu dali no total escuro, deve ser uma experiência fora do normal.
Informações práticas
✔Onde fica: Salinas Grandes está a cerca de 65 km de Purmamarca e 130 km de San Salvador de Jujuy, na Ruta Nacional 52, na fronteira entre Jujuy e Salta.
✔ Como chegar: O caminho passa pela Cuesta de Lipán, com curvas fechadas e altitude que chega a mais de 4.100 metros no ponto mais alto. Dá para ir de carro particular, contratando um motorista, ou em excursões que saem de Purmamarca, Tilcara ou San Salvador de Jujuy. O hotel também oferece transfers.
✔ Altitude: O salar fica a 3.450 metros. Como a subida é rápida, vale se hidratar bem e ir com calma nos primeiros minutos, comer comidas leves e evitar álcool em excesso.
✔ Clima: Eu fui no final do inverno, mas é recomendado que mesmo no verão, leve casaco. A temperatura muda muito ao longo do dia, e o vento pode ficar bem forte em determinados horários, como notei na chegada ao Pristine Camps.
✔ Proteção: Óculos escuros, chapéu e protetor solar são essenciais. A reverberação do sol no sal branco é intensa, mesmo em dias nublados.
❗❗❗O Raphanomundo viajou para a Argentina a convite da OMPT para participar do maior fampress do jornalismo turístico da história.








