ƒ Chilecito, La Rioja, onde a montanha virou história, vinho e flor

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Chilecito, La Rioja, onde a montanha virou história, vinho e flor

Não vou abrir esse texto mentindo e confesso desde já que eu nunca tinha ouvido falar de Chilecito. Quando recebi o roteiro da fampress mais comprida da história do jornalismo de viagens, a cidade ainda não estava lá. Entrou por último, fazendo a viagem ficar mais longa. Como meu retorno à Alemanha já estava marcado, eu achei que não ia poder ir, mas graças a uma reorganização da programação, foi possível ir até lá. Mesmo assim, não estava nos planos. Já era o fim da viagem e eu achava que já tinha visto e vivido tudo o que o noroeste argentino guardava, e foi sem expectativa nenhuma que saí de Tinogasta, em Catamarca, rumo a essa cidade no oeste de La Rioja, uns 140 quilômetros adiante.






A Sierra de Famatina, com mais de 6.000 metros de altitude, passou a me acompanhar na estrada e não saiu mais da janela, nem no caminho, nem durante toda a visita. Posso dizer que quem me recebeu foi a montanha, já que em Chilecito ela está no fundo de cada rua, de cada foto, de cada conversa.

Minha primeira parada de verdade foi na Estação 2 do Cable Carril, conhecida como El Durazno, e o impacto visual foi imediato. De um lado, dava para ver a cidade espalhada lá embaixo e o Cristo despontando ao longe. Do outro, logo atrás de nós, a imensidão da Famatina dominava tudo. Foi ali que percorremos parte da estrutura e do maquinário antigo desse que é frequentemente apresentado como o mais longo e um dos mais elevados sistemas históricos do gênero. 


Mas o que realmente marcou foi a recepção, fomos recebidos com uma típica prova de hospitalidade riojana, com asado argentino, vinho e empanadas feitas na hora. Depois de tantos dias enfrentando o frio intenso do início da viagem, Chilecito nos deu o primeiro dia de calor de verdade. Essa mudança, tanto na temperatura quanto no calor humano da recepção, mudou completamente o clima da viagem. Durante a visita ainda estávamos no inverno, mas a primavera já dava sinais claros. Naquela paisagem árida da cidade, foi impossível não notar que algumas árvores estavam cobertas de flores cor de rosa-choque, sem uma única folha. Pesquisei e descobri serem lapachos rosados, que no Brasil conhecemos como ipê-roxo, primos do nosso ipê-amarelo, a flor símbolo do país.

A montanha que desceu em pedaços

Famatina sempre teve minério, ouro, prata e cobre. O problema era como tirá-lo de lá, porque a mina La Mejicana fica a mais de 4.400 metros de altitude e por muito tempo tudo desceu no lombo de mula. A solução foi o Cable Carril, uma estrutura de cerca de 35 quilômetros e nove estações que vencia um desnível de mais de 3.300 metros até a estação de trem de Chilecito. De lá, o minério seguia para o porto de Rosario e depois para a Europa.


A obra foi construída entre 1902 e 1905 pela empresa alemã Adolf Bleichert & Co., de Leipzig, com financiamento do Estado argentino. A exploração das minas e da fundição ligadas ao sistema ficou nas mãos da britânica Famatina Development Corporation, que adquiriu dezenas de jazidas da região. Uma obra de engenharia alemã, paga com recursos públicos argentinos e inserida em um empreendimento minerador de capital britânico. O resultado dessa combinação ainda resiste nas torres de aço que cortam a montanha.

No Museo Dr. Santiago Bazán, instalado na Estação 1, além das fotos históricas, o que mais me marcou foi perceber o quanto aquele trabalho era braçal e duro. Os objetos preservados deixam o peso da história muito palpável, e é impossível sair dali sem olhar para a montanha de outro jeito. A proximidade com aqueles artefatos deixa a história muito real, e é engraçado como a mente parece virar uma chave rápido durante toda a visita a Chilecito. Ali, a gente sai do frescor das flores na calçada direto para o peso bruto da realidade da montanha.



O homem por trás de tudo

Quem impulsionou a lei que autorizou o Cable Carril foi Joaquín V. González, político, escritor e educador riojano, fundador da Universidade Nacional de La Plata. E por que estou citando especificamente esse personagem? Porque, em 1913, ele passou a ser proprietário de uma finca a cerca de dois quilômetros de Chilecito, que pertencera ao engenheiro de minas inglês William Treloar. Ali, encontrou seu refúgio e batizou a propriedade de Samay Huasi, expressão quéchua que significa “casa de descanso”.

Depois de passar para a Universidade Nacional de La Plata, em 1941, a propriedade foi transformada em uma casa de descanso para artistas e escritores, além de receber atividades acadêmicas. Essa vocação cultural também deixou marcas no museu, que abriga a pinacoteca Antonio Alice, com obras de artistas argentinos, e uma coleção formada ao longo de décadas de encontros entre artistas e intelectuais. Hoje, o lugar é reconhecido como Monumento Histórico Nacional.

Para mim, o casarão funcionou como um verdadeiro descanso para a mente. Samay Huasi foi responsável, mais uma vez, por me levar ao lado mais leve de Chilecito. Caminhando por ali, dá para entender por que um homem com tantas responsabilidades escolheu justamente o sopé daquela montanha imensa para se recolher, contemplar a paisagem e pensar.

Antes de todos eles

Muito antes de toda essa engenharia, é preciso dizer que os incas já ocupavam a região. A Tambería del Inca, do século 15, foi um centro administrativo, militar e ceremonial estratégico em um ramal do Qhapaq Ñan, o Caminho do Inca, e a cidade acabou crescendo ao redor dela. Visitar o centro de interpretação e caminhar pelo sítio arqueológico nos dá uma dimensão real da grandiosidade do império por aqui. Ali fica, por exemplo, o tramo de calçada incaica mais largo já descoberto em toda a Argentina, Bolívia e Chile, com imensos 12 metros de largura. No coração do sítio, os arqueólogos identificaram o ushnu, uma plataforma cerimonial cujo altar aponta perfeitamente para a Sierra de Famatina, provando que a conexão sagrada com a montanha já existia há mais de quinhentos anos.



Foi justamente ali, cercados por tanta história ancestral, que fomos convidados a fazer mais um pequeno ritual de agradecimento à Pachamama. Na verdade, em distintos momentos ao longo da viagem éramos convidados a esses rituais, agradecendo à terra por nos permitir percorrer em segurança esses caminhos. Depois de tanta estrada, aventura, altitude, comida boa e gente generosa, pareceu o mínimo a se fazer.

Ao cair da noite, o convite foi para ver a cidade de outro ângulo. Subimos os 200 degraus da escadaria do Cristo del Portezuelo, o monumento de 16 metros que eu já tinha avistado ao longe logo na chegada. Se de dia Chilecito impressiona pela aridez e pela imponência das rochas, à noite, lá do alto, o vale vira um mar de luzes silenciosas sob o céu estrelado da montanha.



A farinha, a água e a Chaya

Foi a excelente guia Denise, que, além de me falar da ancestralidade indígena da região, me apresentou à Chaya. Em fevereiro, Chilecito e outras localidades de La Rioja celebram essa festa popular, ligada às tradições diaguitas e à reverência à Pachamama, a Mãe Terra. As pessoas se cobrem de farinha, brincam com água e carregam raminhos de manjericão, ao som de música e coplas (versos populares cantados, próximos, em espírito, das nossas marchinhas de Carnaval). Eu, como boa recifense, reconheci o gesto na hora, era quase um mela-mela do Nordeste brasileiro. E, claro, quis saber mais.

Como não vivi a Chaya pessoalmente, compartilho um pouco do que pesquisei. A festa está associada à gratidão pela colheita e à celebração da abundância. A farinha simboliza a fartura, enquanto a água evoca a chuva tão desejada nessa região árida. O manjericão completa a experiência com seu perfume característico. A tradição também é atravessada pela lenda de Chaya, uma jovem que, depois de um amor não correspondido por Pujllay, desapareceu nas montanhas e passou a retornar a cada fevereiro na forma de orvalho ou chuva fina. Pujllay, por sua vez, termina a festa representado por um boneco que é queimado, num ritual que marca o encerramento do Carnaval.

O gesto festivo me lembrou imediatamente o nosso mela-mela, mas o universo simbólico por trás dele me pareceu muito mais profundo. Há algo de bonito nessa celebração que mistura alegria, memória e gratidão à terra, trazendo leveza para o meio desse chão seco.

O vinho e o azeite do vale

Toda essa secura também dá espaço para as coisas boas da vida. Entre a Sierra de Famatina e a Sierra de Velasco, um vale de vinhedos e olivais abriga uma das paisagens agrícolas mais características de La Rioja. A província é uma importante produtora de vinho na Argentina, mas seu grande orgulho é o Torrontés Riojano, a variedade branca emblemática do país. Diferentemente do Malbec, de origem francesa, o Torrontés Riojano nasceu do cruzamento de outras variedades de uva durante o período colonial e se tornou uma das expressões mais genuínas da vitivinicultura argentina. Aqui, a combinação de dias quentes (eu peguei 33 graus), noites frias e altitude favorece o desenvolvimento de aromas intensos, que fazem desse vinho branco uma experiência especialmente perfumada e fresca.

Essa mesma combinação de sol forte e escassez de chuva favorece a produção de azeite de oliva, desde que acompanhada de um manejo cuidadoso da água. A variedade Arauco, uma das mais emblemáticas da olivicultura argentina, é conhecida por sua personalidade marcante. O resultado são azeites que também expressam as características desse território árido, onde a agricultura depende de um equilíbrio delicado entre clima, solo e irrigação.

Na Bodega Valle de La Puerta, em Vichigasta, dá para ver como essa engrenagem funciona em grande escala. Os primeiros vinhedos e olivais foram plantados em 1994, a vinícola foi construída em 2002 e a planta de azeite começou a operar em 2005. Hoje, a propriedade transforma as condições desse vale semiárido em vinhos e azeites que chegam a diferentes mercados.

Mas a região também se revela nas pequenas propriedades. Visitei a Concepción Viñedos Sustentables, em Sañogasta, onde os donos me receberam de maneira muito acolhedora para uma degustação de seus vinhos artesanais. Dá um nó na cabeça pensar que a água que desce das montanhas, tão difícil de enfrentar nas alturas de Famatina, também é essencial para alimentar as videiras aqui embaixo.

Fui embora de Chilecito do mesmo jeito que cheguei, com a montanha na janela. A diferença é que agora eu conseguia enxergar o peso e a leveza que aquele cenário divide constantemente. De um lado, a força bruta do minério e a engenharia que rasgou suas encostas, do outro, o calor do clima, das pessoas, da Chaya, o abraço da primavera nos vinhedos e uma flor cor de rosa teimando em nascer no inverno. Posso dizer que Chilecito me mostrou que os lugares mais brutos podem guardar as surpresas mais gentis.

Mais informações: Turismo Chilecito | @turismo.chilecito

❗❗❗O Raphanomundo viajou para a Argentina a convite da OMPT para participar do maior fampress do jornalismo turístico da história.
Rapha Aretakis

Viajante e criadora de conteúdo em tempo integral. Escrevo, edito e fotografo o Raphanomundo desde 2010, com trabalhos para marcas e veículos de turismo. Nascida no Recife, criada para o mundo, hoje brasileira alemã.

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