Depois de dias intensos percorrendo os grandes cartões-postais de Jujuy, chegamos a Salta, capital da província de mesmo nome, no noroeste argentino. Salta é conhecida como "Salta, la linda", pela arquitetura colonial preservada no centro histórico, mas também é famosa por outra coisa, a vida noturna em torno das peñas.

O que é uma Peña, afinal
Peña é o nome dado aos encontros de música folclórica, tradicionalmente regados a vinho, empanadas e canto coletivo. A tradição nasceu de reuniões informais entre amigos, artistas e boêmios, que se juntavam para tocar violão, bombo legüero e cantar zambas e chacareras. Com o tempo, muitas dessas reuniões viraram casas próprias, abertas ao público. Salta é considerada a capital nacional das peñas na Argentina, muito por conta de nomes históricos do folclore argentino que nasceram ou viveram ali, como Gustavo "Cuchi" Leguizamón e Manuel J. Castilla, autores da famosa zamba "Balderrama", eternizada na voz de Mercedes Sosa. Até hoje, existe um dito entre os salteños, "quem não conhece Balderrama, não conhece Salta". E eu não podia sair da cidade sem conhecer mais a fundo essa tradição.
Como foi o tour de Peñas
E para mergulhar de cabeça na cena cultural de Salta, fizemos um Tour de Peñas que começou às 19h, passando por diferentes casas da cidade, cada uma com uma proposta diferente, e seguiu até às duas da manhã. Eu juro que é trabalho!
A primeira parada foi na Peña Boliche Balderrama, a mais histórica de todas. Fundada em 1922 como um armazém de secos e molhados, o lugar virou point de poetas, cantores e boêmios a partir da década de 1950, e hoje é quase obrigatório para quem visita Salta. Por lá, com a casa ainda começando lentamente os trabalhos, conhecemos um pouco da sua história através das paredes forradas de fotografias de personalidades ilustres que ali estiveram. Seu fundador, Juan Balderrama, se foi, mas o negócio segue nas mãos da família, puxado por sua esposa, Julia, e pelas filhas Patricia e Noemí, que hoje estão à frente da casa. Teria sido bom ver essa peña em pleno funcionamento, mas seguimos para a Calle Balcarce, a rua mais movimentada da vida noturna salteña, reunindo dezenas de bares, restaurantes e peñas lado a lado. A vibe do lugar já contagia, algumas peñas colocam bailarinos na porta, vemos números de dança a cada poucos metros. Na rua mesmo fizemos uma aula rápida de dança típica, aprendendo alguns passos básicos de zamba e chacarera, antes de seguir para a próxima parada. Continuo sem saber dançar esses ritmos, mas se toca em algum lugar sei reconhecer e sei que não devo tirar os olhos do meu parceiro, já é um bom começo.
Ainda na Balcarce, fomos para a Mega Peña La Nueva Panadería del Chuña, uma das maiores e mais animadas da cidade, onde jantamos e assistimos a um show ao vivo, com dançarinos e grupos musicais se revezando no palco. É o tipo de peña mais estruturada, com cardápio completo e espetáculo organizado, bastante participativo, com direito a plateia convocada para dançar em cima do palco, uma experiência única. Fomos recebidos pelo simpático José "Chuña" Gauna, o proprietário que toca aquela imensidão de lugar com paixão. Jantamos um locro delicioso, de entrada, não poderia ser outra coisa que não a verdadeira empanada salteña. Com as baterias recarregadas, estávamos prontos para seguir para a última parada do tour.
Terminamos a noite na Casona del Molino, de longe minha parada favorita. É uma casa colonial do século 18, sem show montado, sem palco, onde grupos de amigos se reúnem em cômodos diferentes para tocar e cantar espontaneamente. O clima é muito mais intimista, todo mundo próximo, cantando junto. Confesso que bateu aquela vontadezinha de saber as letras que meus colegas latino-americanos cantavam de cor e em uníssono, mas ainda assim foi uma das experiências mais bonitas da viagem.
O passaporte de Peñas
Um detalhe que deixou tudo ainda mais especial e lúdico, foi o pasaporte peñero que recebemos no início do tour. A cada casa que visitávamos, carimbávamos nossa passagem por ali, como um registro físico da nossa própria noite salteña. Qual viajante que não ama um passaporte e carimbos, não é mesmo?
Um dia antes do tour, já tínhamos tido um gostinho do que é uma peña, jantando na La Güemesiana, uma casa mais nova, no Paseo Güemes, com comida típica e apresentações de música com microfone aberto para quem quiser se arriscar em um zamba ou uma chacarera. Infelizmente, ainda não tinha meu passaporte em mãos, então me falta o carimbo dessa. Mas eu diria que esse é um delicioso motivo para retornar à Salta.
❗❗❗O Raphanomundo viajou para a Argentina a convite da OMPT para participar do maior fampress do jornalismo turístico da história.








