Maskpackers | Navegando (e sonhando) com Tamara Klink

Com o fim do isolamento social e do semestre na faculdade (e a consequentemente a reabertura das fronteiras entre os países da UE durante o verão europeu passado), Tamara Klink (23) tinha um propósito muito claro em mente: aprender a navegar sozinha. E, há poucos meses, a estudante de Arquitetura Naval realizou esse grande feito e se lançou sozinha numa travessia entre a Noruega e a França, onde vive, pela primeira vez.

A jovem, que como ela mesma se descreve, tem os pés no chão e a cabeça em alto-mar, conta pra Maskpackers numa entrevista inspiradora que transcrevo abaixo, quais foram os impactos da pandemia na sua rotina de estudante e velejadora e vai além, pontuando as diferenças entre o isolamento no barco e em terra firme, onde enfrentamos sem escolha, um vírus. Nos mais variados portos onde atracou a Sardinha – nome do seu barco comprado com a ajuda especial do amigo Henrique – a jovem navegadora observou as diferenças de abordagem quando o assunto era o coronavírus. 

Compartilhando sua rota e seus passos através de uma série de vídeos publicados no instagram e no seu canal do youtube, a viajante teve companhia remota de muitos espectadores durante o percurso. Guiada pelos seus ideais, ela se questiona: Quanto dos meus sonhos vem de mim e quanto vem do mundo? E zarpou a fim de achar respostas para perguntas profundas.

Tamara Klink e a Sardinha, juntas, desbravando o mundo - Foto: Arquivo Pessoal

Os próximos passos já estão sendo rascunhados, além de se formar na faculdade, Tamara pensa em navegar para o sul da Europa até chegar à África. Dependendo das condições e circunstâncias, quem sabe, ela se lançará numa travessia do Atlântico. 

“Sempre vale a pena ir na direção do nosso sonho. Por mais que demore, por mais que pareça longo o caminho, uma hora gente olha pras pegadas e vê que, com curvas e trancos, o sonho organiza o traçado.”

Onde você estava quando a pandemia começou? 

Eu estava em Vannes (Sènè), na Bretanha, aqui na França. Os primeiros impactos da pandemia na minha rotina foram: não poder sair desse mesmo lugar. Eu acabei me mudando logo que a gente se deu conta que essa pandemia ia durar bastante tempo. Deixei meu apartamento de estudante e fui morar com pessoas próximas pra gente ficar isolados juntos, pra eu não ficar solitária. Então, deixei de morar sozinha para morar com outras duas pessoas. Foi uma outra experiência. 

Quais foram os primeiros impactos da pandemia na sua rotina?
Acho que estar passando por essa pandemia, e passar por situações tão difíceis, e ver outras pessoas em situações bem mais difíceis que a minha até, tudo isso me fazia me colocar muitas questões: se o que eu fazia, fazia sentido para o mundo. Onde é que eu estava colocando o norte dos meus planos? E me dei conta de que importava menos o que eu fazia e como eu fazia, do que porquê eu tomava as decisões que eu tomava, e seguia o rumo que eu seguia. Então, acho que o impacto principal foi me colocar essas questões.  

Tamara Klink, pés no chão e cabeça em alto-mar
Foto: Arquivo Pessoal
E assim que as fronteiras foram abertas, assim que terminei o meu semestre na faculdade, eu me coloquei esse grande objetivo: eu quero aprender a navegar sozinha. Era o meu propósito, sem saber onde isso aconteceria, de qual maneira, acho que o porque é importante por causa disso, independentemente do contexto, ele se adapta pra encontrar as respostas pra essa pergunta.



Qual o primeiro passeio ou viagem que você conseguiu realizar quando passear viajar voltou a ser possível?

Foi buscar um barco que eu tinha levado junto com meu companheiro para Portugal e o barco ficou lá durante a pandemia. E assim que a gente chegou – a gente acabou não estando mais junto –, eu respondi a um convite que um seguidor do YouTube me fez, o Henrique. Esse seguidor que eu não conhecia na época, me convidou para ir pra Noruega, e eu não poderia imaginar que ele se tornaria uma pessoa super importante na minha vida, um grande amigo e apoiador, sem o qual essa travessia sozinha não teria sido possível. O Henrique deu a ideia de comprar um barco lá, me ajudou a preparar o barco todos os dias e me acompanhou durante a viagem remotamente. Foi super importante e mágico. 


Não faz muito tempo você se lançou na sua primeira travessia sozinha. Sei que o teu histórico familiar (Tamara é filha do navegador Amyr Klink e da fotógrafa Marina Klink) te preparou para a vida a bordo. Mas o isolamento que se sente no mar te preparou de alguma forma para esses dias de pandemia em terra firme? Quais diferenças você pode apontar entre o isolamento em casa e o isolamento no barco? 

Em vários pontos estar isolado no mar não tem nada a ver com estar isolado em casa. A Internet e a possibilidade de falar e escrever mensagem, até conversar por vídeo, que a gente tem em casa, a gente não tem em alto-mar. Isso muda muito porque durante dias a gente não vai ouvir a voz de ninguém a não ser a nossa própria. Isso faz uma diferença total. Além disso, no mar por mais que as situações sejam mais previsíveis (é previsível que o tempo pode mudar, é previsível que o mar pode aumentar ou diminuir) na terra, ainda mais nos centros urbanos, tem um bilhão de coisas que estão acontecendo o tempo todo, as quais a gente não pode prever. Enfim, a maneira quando vai aparecer um carro ou não, em qual mão, se alguém vai furar sinal, se não vai, se vai aparecer alguém na esquina ou não… 

A jovem navegadora Tamara Klink fez uma travessia sozinha entre a Noruega e a França aos 23 anos
Foto: Arquivo Pessoal

Eu acho muito mais aflitivo estar nos centros urbanos e muito mais assustador do que estar em alto-mar. Então, nesse sentido, isolada no mar, eu me sinto mais segura. Porque eu acho que os perigos fazem mais sentido. 

Ao mesmo tempo, estando no mar, isolado, a gente tem um propósito claro e preciso, que é chegar no próximo porto. E em terra a gente nem sempre tem isso. Além disso, bom, no mar as pessoas sabem que a gente não vai responder, não tem exigências em relação a isso, não tem gente chateada porque a gente não respondeu uma mensagem ou incomodada com algo que a gente disse ou não disse. 

Talvez... o olhar dos outros ele não importa porque ele não existe no mar. E em terra a gente tem que lidar com isso, e acho que isso é um motivo de muita aflição quando a gente está isolado em terra. 

E acho que a principal diferença é que no mar a gente está isolado porque a gente quis. A gente sabia quais eram as condições e a gente escolheu estar lá. E na terra a gente não escolheu isso, a gente simplesmente tem que estar naquela situação. Ainda que seja um privilégio poder estar isolado – tem muitas pessoas que nem puderam, nem tiveram esse luxo de poder se isolar –, mas as que estiveram isoladas elas não se isolaram porque elas achavam que era super legal. Elas estavam isoladas (e estão isoladas) porque é necessário. E isso é algo que torna o enfrentamento da situação algo completamente diferente. 


Como foi esse deslocamento durante a pandemia? Observou diferenças nas medidas de higiene e segurança por onde passou? Você se sentiu segura ao fazer essa viagem?  

Cada país tem uma abordagem diferente: na Noruega ninguém usava máscara, na Holanda, todo mundo. Na Espanha, também. Ao longo do tempo as normas e regras foram foram mudando e eu sei que, bom, hoje essa viagem que eu fiz seria impossível, não só por uma questão de tempo –agora se aproxima o inverno – mas também porque vários países pelos quais eu passei hoje estão fechados. 

Tamara e Sardinha no desenrolar de um sonho: navegar sozinha. Foto: Arquivo Pessoal

Foi um pouco assim “o tempo único onde daria pra ter feito, justo e preciso”. É muito duro também ver que isso está acontecendo e, ao mesmo tempo, me sinto muito privilegiada de poder, não só fazer essa viagem, mas permitir que outras pessoas, remotamente, através dos relatos, possam também ter participado disso. De uma certa maneira, se torna importante permitir aos outros sonhar também com isso.  


A Europa volta a enfrentar novos confinamentos com a segunda onda da pandemia, qual dica você dá para aqueles que têm dificuldade com o isolamento?

Não sei se eu me sinto a dona da verdade para dar dicas para outras pessoas sobre como enfrentar o isolamento, mas algo que eu acho muito importante na minha vida, para lidar com essas situações, é sempre ser minha amiga. Nunca me obrigar ou me cobrar demais, acho que buscar sempre ser minha amiga, ser aquela que motiva, que encoraja, que acolhe e diz que tá tudo bem mesmo nos momentos difíceis – acho que principalmente neles. Também que comemora as próprias conquistas – às vezes elas são pequenas, mas são importantes, são necessárias – então eu acho que ser o seu melhor amigo, se tratar como você gostaria que o melhor amigo te tratasse é algo bem poderoso. 


Se puder compartilhar conosco, qual será sua próxima aventura quando as condições para planejar/realizar viagens melhorarem?

Meus planos principais agora são terminar a faculdade, algo bem importante para mim. É uma travessia que eu estou realizando há 6 anos já e estou animada para poder concluí-la. E depois, em termos de navegação, eu gostaria de levar o barco, assim que começar a primavera e as condições de tempo melhorarem, prepará-lo para começar a descer um pouco mais a Europa. Descer para o sul da França, depois ir para Portugal, deixar o barco em Cabo Verde, Canárias… E, dependendo das condições, do contexto – não temos como saber como será o ano que vem – mas seria bem legal fazer uma travessia do Atlântico com ele.

Sobre a Maskpackers

Observando colegas que moram no Brasil e no mundo fazendo rápidas viagens, turistando em suas próprias cidades, aproveitando curtas férias ou feriados para recarregarem as baterias a fim de aplacar os efeitos negativos do isolamento causado pelo surto da Covid-19, resolvi criar uma coluna onde entrevisto uma série de viajantes (e pessoas que de alguma forma estão envolvidas com o turismo) e chamá-la de Maskpackers – uma brincadeira em inglês com as palavras mask e backpackers, “mochileiros de máscara”. 

Enquanto uma vacina não é desenvolvida, tentamos viver uma vida alternando entre o medo de se contaminar com o coronavírus e a dificuldade de se isolar. Como a máscara hoje se tornou um símbolo de quem adere às medidas de segurança, algumas pessoas passaram a viajar de um novo jeito e compartilham aqui com vocês quais são as impressões, cuidados e recomendações de quem viaja durante a pandemia. 

Aviso: aproveito para deixar claro que esse projeto não é um incentivo às viagens. A pandemia não acabou. Esse trabalho tem um cunho jornalístico com o intuito de relatar experiências de pessoas que ao mesmo tempo em que estão tentando se adaptar à nova realidade, acreditam na seriedade do assunto.

Rapha Aretakis

Viajante e sonhadora em tempo integral. Edito, escrevo e fotografo para o Raphanomundo desde 2010. Nascida no Recife, criada para o mundo, vivendo em Stuttgart, Alemanha.

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