Depois de deixar a
Cidade do Panamá rumo à
província de Colón para participar do
7º Fórum Internacional de Líderes do Turismo, que aconteceu no
Centro de Arte e Cultura da cidade de Colón, a expectativa era conhecer outra faceta do país que até então eu vinha explorando, diferente dos arranha-céus espelhados, obras faraônicas da engenharia moderna e a vibração cosmopolita da capital.
A menos de duas horas de distância,
Colón carrega um peso diferente. Se a Cidade do Panamá
se apresenta como vitrine contemporânea do país, Colón parece guardar as engrenagens que ajudaram a construí-lo. E, ao longo deste texto, explico por quê.
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| A tradição do Congo durante nossa recepção no Colon2000 |
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| É sempre surpreendente estar perto de um gigante dos mares |
Nossa chegada foi pelo estratégico Colon2000, um híbrido entre terminal marítimo voltado ao turismo de cruzeiros e shopping, que abriga uma área duty free com dezenas de lojas e opções gastronômicas, ideal para compras de perfumes, eletrônicos e souvenires a preços isentos de impostos. Já na recepção, assisti a uma apresentação de Congo, manifestação afro-panamenha tradicional da costa caribenha, com raízes na resistência dos povos escravizados, deixando claro que, em Colón, tradição e globalização dividem o mesmo palco.
E não é coincidência que essa cena aconteça ali.
O complexo Colon2000 funciona como uma porta de entrada organizada e eficiente, projetada para o fluxo constante de navios e turistas. Localizado na região da Zona Libre de Colón, reconhecida como a maior zona franca do continente americano e a segunda maior do mundo, ele está estrategicamente posicionado na entrada atlântica do Canal do Panamá. A área da Zona Livre é enorme e abriga cerca de 2.600 empresas, grande parte voltada ao atacado, embora muitas lojas também operem no varejo, tornando-se um atrativo para o visitante que não dispensa algumas compras de marcas mundialmente consolidadas.
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| Comida panamenha de excelente qualidade no More Amore, restaurante no Colon2000 |
Mas, ao cruzar os limites da Colón estratégica e comercial, minha curiosidade se ampliou diante de um contraste impossível de ignorar. Primeiro, a surpresa ao me deparar com uma espécie de “réplica” do Cristo Redentor. Aos pés do Cristo de Colón, que observa a cidade e o mar, a geografia local parece se organizar diante dos olhos. A imagem guarda silenciosamente uma cidade moldada pelo comércio e pela história.
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| Olhando por todos: o Cristo de Colón |
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| Os contrastes que não passam despercebidos |
Em seguida, vieram as marcas que não foram apagadas pela dinâmica do comércio internacional: prédios antigos, fachadas descascadas e uma arquitetura caribenha que, em alguns momentos, remete a cenários dignos de Havana.
Durante a pesquisa para a elaboração desta matéria, encontrei referências frequentes a Colón como "um lugar onde a riqueza que atravessa seus portos não se reflete integralmente na paisagem urbana". Para mim, acostumada a ter o olhar apurado para a arte de rua, porém, em alguns momentos o que poderia parecer abandono também se transformou em tela. Me deparei com murais de street art e intervenções urbanas que trouxeram cor às ruas e deram novas camadas de significado à cidade. Definitivamente, Colón é um lugar que se expressa.
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| Street Art nas ruas de Colón |
De certa forma, a apresentação de Congo vista na chegada deixa de ser apenas recepção folclórica e passa a dialogar com uma herança cultural que segue viva. Pernoitar no Hotel Internacional de Colón também fez parte do arredondamento da experiência. Do terraço, a vista da região portuária é quase hipnotizante, e é impossível, mesmo por um instante, esquecer onde estamos.
A dimensão histórica de Colón se revela de forma ainda mais intensa na visita ao Castillo de San Lorenzo, fortificação militar colonial. Diante das muralhas erguidas no século XVI, voltadas para o Caribe, a perspectiva muda completamente. Antes dos contêineres, antes da zona franca e mesmo do Canal do Panamá, aquele território já era estratégico. Piratas, impérios europeus e a rota do ouro espanhol disputaram essas águas e essas costas. O forte conecta Colón a um sistema colonial global e amplia a compreensão de sua relevância na história do Panamá, a cidade nunca foi periférica, sempre esteve no centro de interesses que atravessam oceanos.
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| Ruínas que confirmam o protagonismo histórico de Colón |
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| Jornalistas de toda a América Latina conhecem o Castillo de San Lorenzo |
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| Colón é colorida e viva |
Mesmo para quem visita Colón rapidamente, como foi o meu caso, é possível perceber que
há riqueza histórica e cultural além do onipresente porto. O brilho do comércio global não apaga as marcas do tempo, e talvez seja justamente nesse contraste que resida a essência da cidade,
um lugar por onde o mundo passa todos os dias, mas onde a história insiste em permanecer.
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❗❗❗O Raphanomundo foi ao Panamá a convite da OMPT para participar da 11a edição do Prêmio Pasaporte Abierto e atividades relacionadas.