Antes de embarcar para os 23 dias da fampress mais longa da história do jornalismo de turismo, coloquei na cabeça que precisava escrever sobre as mulheres que moldaram o norte argentino. Eu saí de casa com um plano na bagagem. Queria entender as pegadas de figuras que estão nos livros e nas músicas, como a voz visceral de Mercedes Sosa, a genialidade transgressora da escultora Lola Mora e a inteligência política de Macacha Güemes, a mulher que coordenou a espionagem e a resistência na independência do país. Eu ia falar apenas de história.
Mas a estrada tem seus próprios planos.
Bastou cruzar as primeiras fronteiras para perceber que o norte não é um museu de grandes mulheres do passado. A história ali não está relegada às páginas de um livro: ela está viva e atuando. Trabalhando. Servindo vinho, assando empanadas, moldando o barro e tecendo a lã.
Durante mais de três semanas, atravessei paisagens que pareciam de outro planeta. Quem me trouxe de volta à Terra foram as mulheres que fui encontrando pelo caminho, herdeiras diretas dessa força matriarcal.
Vi essa força em Susana, que comanda uma vinícola familiar em Maimará. Em Lara, enóloga que faz nascer vinho na província de Catamarca. Nas mãos de Ramonita, artesã de Tinogasta, que transforma argila em obra de arte. E senti essa força de novo ao pisar na peña mais icônica de Salta, mantida de pé pela determinação da viúva e das filhas de Balderrama, o mesmíssimo templo boêmio que Mercedes Sosa cantou décadas atrás.
Até a logística da viagem tinha nome e sobrenome feminino. Nos bastidores da fampress, mulheres como Elba Romero em La Plata, Lucia Sant em Jujuy, Maria Ulivi em Salta e La Rioja, e Debora Ruiz em Catamarca e Tucumán organizaram cada trecho do roteiro. Se Macacha Güemes articulava exércitos no século 19, elas articularam províncias inteiras no século 21.
O norte argentino carrega a energia da Pachamama, a Mãe Terra, e é nas mulheres que ela ganha rosto no dia a dia. A seguir, três capítulos sobre elas, as que cultivam e moldam, as que cantam e sustentam a noite, as que organizam e resistem. Para você deixar de lado, por um momento, os guias de viagem tradicionais.
As donas da terra, do vinho e do gosto
Para entender de onde vem a força que move o norte argentino, é preciso olhar para a obra de Lola Mora. No início do século 20, a escultora tucumana chocou a sociedade com a Fuente de las Nereidas, em Buenos Aires, ao esculpir corpos nus em mármore. Ela botou as mãos na matéria bruta e extraiu dela uma sensibilidade que desafiava o seu tempo.
Décadas mais tarde, caminhando pelas estradas de Jujuy e Catamarca, percebi que esse ímpeto de moldar a realidade com as próprias mãos continua vivo nas herdeiras contemporâneas desse chão. Elas são as novas escultoras da paisagem norteña, mas em vez do mármore, suas ferramentas são a argila, a videira e a capacidade de recomeçar.
Eu encontrei essa energia de transformação em Maimará, no coração da Quebrada de Humahuaca, ao conhecer Carmen Susana Cruz. A história de Susana e de sua família começa na dureza do solo. Antes de se dedicarem aos vinhos de altitude na bodega Jesús Vilte, eles cultivaram hortaliças como pimentões, cenouras e aipo. Transformaram-se depois em pioneiros na produção de flores de estufa na região. Toda essa bagagem acumulada e o desejo constante de crescer abriram caminho para a viticultura. O que começou como um novo desafio virou uma paixão familiar que hoje brota forte nas videiras de altitude.
Mas se Susana e Lara engarrafam o tempo em forma de vinho, em Tinogasta eu conheci uma mulher que é a própria síntese da história e do presente. Aos 75 anos, Ramona Quispe, a Ramonita, carrega uma vitalidade e um senso de humor que as palavras mal conseguem dar conta. Ela mantém uma ligação profunda com o barro desde a infância, época em que foi criada com mais sete irmãos pela mãe solo. Juntas, elas recolhiam a argila e moldavam as peças que serviam como moeda de troca por milho, porções de feijão e carne para garantir que nunca passassem fome em casa.
A vida exigiu dela. Quando ficou viúva e se viu com os três filhos em idade escolar, Ramonita buscou no próprio passado o caminho para seguir em frente. Ela conta que o único rumo possível foi colocar bem as calças e assumir as rédeas da própria casa para poder se dedicar ao que sempre sonhou. O sonho era o retorno definitivo às origens da argila.
Hoje, seus filhos já formados a acompanham até os cerros para buscar a matéria-prima. O processo exige uma paciência quase meditativa, já que algumas terras vêm duras como pedras e precisam ficar dez dias de molho até se dissolverem por completo. Depois, passam por diferentes coadores e por um filtro de pano até que reste apenas uma massa finíssima e maleável, pronta para ser moldada e assada em um forno a lenha por até quinze horas seguidas. A natureza dali oferece tons de branco, vermelho, amarelo e rosa, guardando a rara argila preta para os picos mais altos da Cordilheira dos Andes.
No seu ateliê chamado Madre Tierra, integrado ao projeto catamarqueño de turismo sensorial, o que Ramonita mais gosta de fazer são panelas e utensílios úteis. Ela garante, com os olhos brilhando, que o locro e até uma simples xícara de chá ou um gole de vinho ganham um sabor completamente diferente quando tocam o barro. Ao nos convidar para botar a mão na massa e moldar nossa própria peça, Ramonita compartilha muito mais do que técnica. Ela nos dá perspectiva e nos mostra como as herdeiras de Lola Mora continuam transformando a crueza do chão em arte generosa, com as mãos.
Quando o sol se esconde atrás das montanhas e a noite chega, essa mesma memória norteña deixa de ser moldada no barro para ser cantada a plenos pulmões. É hora de colocar as ferramentas de lado e seguir o som dos violões até as peñas, onde outras mulheres guardam as chaves da noite, da boemia e da voz mais profunda da América Latina.
As guardiãs da música e da boemia
No noroeste argentino, o folclore tem algo de ritual, de sagrado. Ele acontece muito dentro das peñas, aquelas casas que promovem encontros tradicionais onde as pessoas se reúnem ao redor de mesas fartas para tomar vinho, comer empanadas e cantar madrugada adentro. Não dá para dizer que conhece a região sem passar por um desses templos boêmios. Mas o que pouca gente nota, enquanto os violões e os bombos legüeros ditam o ritmo das zambas e chacareras, é quem realmente segura as chaves dessas casas quando as luzes se acendem e a música começa.
A maior prova disso fica em Salta. Existe um ditado local que avisa que quem não conhece Balderrama, não conhece Salta. Imortalizada na voz inigualável de Mercedes Sosa através da famosa zamba composta por Cuchi Leguizamón e Manuel Castilla, a Peña Boliche Balderrama é o berço da boemia norteña.
O armazém nasceu em 1922 e virou o ponto de encontro obrigatório de poetas e cantores. Juan Balderrama, o fundador histórico, já morreu, mas a casa segue de pé. Hoje, quem está à frente dessa instituição é sua esposa, Julia, ao lado das filhas Patricia e Noemí. São elas as guardiãs da herança que Mercedes cantou décadas atrás.
Essa liderança feminina silenciosa que move as engrenagens da noite se repetiu quando cruzei a fronteira da província vizinha. Em pleno centro de San Miguel de Tucumán, a Peña Cultural El Cardón funciona em uma casona do século 18 que já foi cenário de episódios da própria Independência argentina, servindo de ponto de encontro estratégico para grandes figuras da libertação sul-americana. Há cerca de quinze anos, quem gerencia o espaço é Silvia Liliana Campero, a Lili, que faz questão de reforçar que o lugar não é um restaurante, mas uma cantina cultural.
Dali de dentro, Lili comanda o pátio e a cozinha, que chega a produzir mais de duzentas dúzias de empanadas tucumanas artesanais em feriados históricos. É ela quem garante que a história e a cultura da província continuem sendo provadas através dos sentidos.
No entanto, durante os meus dias de estrada, essa onipresença feminina nos bastidores revelou um contraste incômodo. Embora as mulheres cuidem da cozinha, gerenciem o negócio e assumam o papel de guardiãs da memória, os palcos das peñas continuam sendo um território quase que exclusivamente dominado por homens. Rodei por dezenas de apresentações, vi grupos e solistas se revezarem sob os refletores em uma sequência quase interminável de vozes masculinas.
Nas peñas que visitei, só uma mulher subiu ao palco. Foi em Tucumán, a terra de Mercedes Sosa. Onde mais? No pátio histórico da Lili Campero, Adriana Tula soltou a voz cantando um repertório que incluía a própria Mercedes, e o ar da cantina pareceu mudar. Entre as canções estava Alfonsina y el mar, que conta os últimos passos da poeta Alfonsina Storni rumo ao mar de Mar del Plata, uma mulher que levou suas dores em silêncio até o fim. As pessoas pararam para prestar atenção no que ela cantava. Era uma música sobre uma voz calada, cantada por uma voz que ninguém ali conseguiu ignorar. Aquilo era um lembrete de que a força da mulher no folclore norteño é imensa, mesmo num palco ainda dominado por homens. Mercedes Sosa abriu os caminhos com o peito, e são mulheres como Julia, Patricia, Noemí, Lili e Adriana que continuam garantindo que a noite do norte não perca a sua identidade mais profunda.
Quando o eco dos bombos finalmente silencia e a madrugada dá lugar ao amanhecer, a resistência desse povo deixa as mesas boêmias para caminhar sob a luz do sol. É hora de entender como essa mesma garra feminina, que hoje sustenta as peñas, já se articulava ao longo da própria história do país. No próximo e último capítulo, vamos descobrir as estrategistas que moveram províncias inteiras para defender seu território no passado e no presente.
As estrategistas da resistência
Para que a história oficial aconteça na linha de frente, alguém precisa desenhar os bastidores. No século 19, enquanto o general Martín Miguel de Güemes liderava os Infernales nas batalhas pela independência no norte argentino, a inteligência estratégica do movimento funcionava sob o comando de sua irmã. Magdalena Güemes, a Macacha, foi a mente política da resistência. Ela coordenava redes de espionagem, costurava acordos diplomáticos e mantinha o território articulado quando tudo parecia desmoronar. Curiosamente, depois de visitar algumas casas e museus dedicados à história de seu irmão, pouco ouvi falar dela. Duzentos anos depois, cruzar o país na fampress mais longa da história do jornalismo de turismo me provou que essa capacidade feminina de mover províncias inteiras continua operando exatamente no mesmo lugar, longe dos holofotes.
Embarquei no dia 1 da fampress e cheguei à Argentina no dia 2, com a engrenagem já em movimento. Isso tornou meu contato com Elba Romero breve, mas marcante. Responsável pela etapa em La Plata, ela fez questão de acolher pessoalmente os jornalistas que se integraram ao grupo depois do início. Elba refez a pé um circuito express, dessa vez ela mesma apresentando a cidade aos retardatários, com os prédios mais icônicos e a joia arquitetônica local, a Catedral Inmaculada Concepción. Foi o primeiro sinal de uma liderança que sabe que nenhum detalhe ou visitante pode ficar para trás.
Quando a rota avançou em direção ao norte profundo, a viagem cruzou o caminho de Lucia Sant, uma figura cuja identidade se mistura completamente com a província que representa. A meu ver, Lucia é o verdadeiro cartão-postal de Jujuy para o mundo. O seu orgulho regional é tão evidente que fica impossível defini-la apenas como argentina; ela é, essencialmente, jujeña. Nosso primeiro encontro aconteceu em janeiro de 2026, durante uma viagem de imprensa no Panamá. Bastou que eu expressasse minha curiosidade sobre essa porção andina do mapa para que Lucia pusesse sua capacidade de articulação em movimento e me abrisse as portas para as maravilhas de sua província.
Essa mesma energia resolutiva ganhou contornos de urgência quando chegamos a Salta pelas mãos de Maria Ulivi. Maru pertence ao grupo de pessoas que não esperam as coisas acontecerem, elas agem e resolvem. Diante de um desafio logístico complexo na hospedagem do grupo, ela acionou seus contatos e conseguiu, de última hora, através de sua amiga Judith Cohen, dona do Hotel Íris, acomodar todos os jornalistas em um único local. Em uma viagem com dezenas de profissionais de comunicação de diferentes países, garantir essa unidade foi a jogada estratégica que manteve o ritmo e a unidade do grupo.
A última grande fronteira dessa jornada foi desvendada por Debora Ruiz, a mente por trás da nossa imersão em Tucumán e Catamarca. Debora foi a responsável por me apresentar a uma parte da Argentina da qual eu nunca tinha ouvido falar. Ao longo dos meses antecedentes à viagem, ela me repetia constantemente que Catamarca era uma joia bruta. Foi na Ruta de los Seismiles que eu entendi o que ela queria dizer: as paisagens que beiravam o extraterrestre mudavam a cada dezena de quilômetros, num dos cenários mais impressionantes que já vi em minhas andanças pelo mundo.
Se no passado Macacha Güemes operava a diplomacia e a espionagem sem receber o devido crédito, como percebi nos museus que visitei, no presente são mulheres como Elba, Lucia, Maria e Debora que desenham as estratégias para que o mundo consiga enxergar essas províncias. Elas são uma espécie de Infernales modernas, arquitetando rotas e resolvendo crises.
Termino essa jornada de mais de três semanas com a certeza de que a herança da Pachamama está longe de ser um mito distante. Ela tem o rosto, as mãos e a garra de cada Susana, Lara, Ramonita, Julia, Lili, Adriana e de cada anfitriã que fez a poeira dessas estradas virar história. O norte da Argentina é imenso na sua geografia, mas é a força invisível de suas mulheres que o torna verdadeiramente gigante.
Dedico esse texto a todas as outras mulheres, companheiras de caminhada, jornalistas e profissionais do turismo, que percorreram a Argentina junto comigo: Cristina Rosario, Faby Tonetto, Gabriela Almeida, Gabriela Rodman, Jacqueline Granda, Luisa Rodríguez, Maria Aurelia Mandieta, Mariana Otero, Marta Díaz e Naivi Frias.
Mas a estrada tem seus próprios planos.
Bastou cruzar as primeiras fronteiras para perceber que o norte não é um museu de grandes mulheres do passado. A história ali não está relegada às páginas de um livro: ela está viva e atuando. Trabalhando. Servindo vinho, assando empanadas, moldando o barro e tecendo a lã.
Durante mais de três semanas, atravessei paisagens que pareciam de outro planeta. Quem me trouxe de volta à Terra foram as mulheres que fui encontrando pelo caminho, herdeiras diretas dessa força matriarcal.
Vi essa força em Susana, que comanda uma vinícola familiar em Maimará. Em Lara, enóloga que faz nascer vinho na província de Catamarca. Nas mãos de Ramonita, artesã de Tinogasta, que transforma argila em obra de arte. E senti essa força de novo ao pisar na peña mais icônica de Salta, mantida de pé pela determinação da viúva e das filhas de Balderrama, o mesmíssimo templo boêmio que Mercedes Sosa cantou décadas atrás.
Até a logística da viagem tinha nome e sobrenome feminino. Nos bastidores da fampress, mulheres como Elba Romero em La Plata, Lucia Sant em Jujuy, Maria Ulivi em Salta e La Rioja, e Debora Ruiz em Catamarca e Tucumán organizaram cada trecho do roteiro. Se Macacha Güemes articulava exércitos no século 19, elas articularam províncias inteiras no século 21.
O norte argentino carrega a energia da Pachamama, a Mãe Terra, e é nas mulheres que ela ganha rosto no dia a dia. A seguir, três capítulos sobre elas, as que cultivam e moldam, as que cantam e sustentam a noite, as que organizam e resistem. Para você deixar de lado, por um momento, os guias de viagem tradicionais.
As donas da terra, do vinho e do gosto
Para entender de onde vem a força que move o norte argentino, é preciso olhar para a obra de Lola Mora. No início do século 20, a escultora tucumana chocou a sociedade com a Fuente de las Nereidas, em Buenos Aires, ao esculpir corpos nus em mármore. Ela botou as mãos na matéria bruta e extraiu dela uma sensibilidade que desafiava o seu tempo.
Décadas mais tarde, caminhando pelas estradas de Jujuy e Catamarca, percebi que esse ímpeto de moldar a realidade com as próprias mãos continua vivo nas herdeiras contemporâneas desse chão. Elas são as novas escultoras da paisagem norteña, mas em vez do mármore, suas ferramentas são a argila, a videira e a capacidade de recomeçar.
Eu encontrei essa energia de transformação em Maimará, no coração da Quebrada de Humahuaca, ao conhecer Carmen Susana Cruz. A história de Susana e de sua família começa na dureza do solo. Antes de se dedicarem aos vinhos de altitude na bodega Jesús Vilte, eles cultivaram hortaliças como pimentões, cenouras e aipo. Transformaram-se depois em pioneiros na produção de flores de estufa na região. Toda essa bagagem acumulada e o desejo constante de crescer abriram caminho para a viticultura. O que começou como um novo desafio virou uma paixão familiar que hoje brota forte nas videiras de altitude.
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| Susana Cruz da Bodega Jesús Vilte, Maimará, Jujuy - Foto: Santiago Peñaranda |
Mais ao sul, na província de Catamarca, está Lara Fidelio. Aos 30 anos, ela atua como enóloga na bodega Perro Guardián, localizada em San José, no departamento de Tinogasta. Ao caminhar pela propriedade com um alfarrobeiro centenário como testemunha, é impossível não se contagiar pelo encantamento com que Lara fala da produção e do resgate histórico dos vinhedos locais. Ela faz questão de reforçar com orgulho a sua identidade de enóloga catamarqueña, formada ali mesmo em Tinogasta e especializada em microvinificações e vinhos de guarda. Para ela, a existência de uma escola de enologia na região é um divisor de águas na valorização do território.
Lara gosta de definir a Perro Guardián como uma bodega viva, um projeto em contínua evolução que se expande, rotaciona e se reconfigura dependendo do momento. Essa energia dinâmica foi o que permitiu consolidar a propriedade como a primeira vinícola turística oficial reconhecida pela província de Catamarca. Ela reconhece que ainda há um longo caminho pela frente, mas que carregar essa distinção inédita é tanto um motivo de orgulho quanto uma responsabilidade que os obriga a melhorar a cada dia.
Lara gosta de definir a Perro Guardián como uma bodega viva, um projeto em contínua evolução que se expande, rotaciona e se reconfigura dependendo do momento. Essa energia dinâmica foi o que permitiu consolidar a propriedade como a primeira vinícola turística oficial reconhecida pela província de Catamarca. Ela reconhece que ainda há um longo caminho pela frente, mas que carregar essa distinção inédita é tanto um motivo de orgulho quanto uma responsabilidade que os obriga a melhorar a cada dia.
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| A enóloga Lara Fidelio contagia com sua paixão pelo vinho |
Mas se Susana e Lara engarrafam o tempo em forma de vinho, em Tinogasta eu conheci uma mulher que é a própria síntese da história e do presente. Aos 75 anos, Ramona Quispe, a Ramonita, carrega uma vitalidade e um senso de humor que as palavras mal conseguem dar conta. Ela mantém uma ligação profunda com o barro desde a infância, época em que foi criada com mais sete irmãos pela mãe solo. Juntas, elas recolhiam a argila e moldavam as peças que serviam como moeda de troca por milho, porções de feijão e carne para garantir que nunca passassem fome em casa.
A vida exigiu dela. Quando ficou viúva e se viu com os três filhos em idade escolar, Ramonita buscou no próprio passado o caminho para seguir em frente. Ela conta que o único rumo possível foi colocar bem as calças e assumir as rédeas da própria casa para poder se dedicar ao que sempre sonhou. O sonho era o retorno definitivo às origens da argila.
Hoje, seus filhos já formados a acompanham até os cerros para buscar a matéria-prima. O processo exige uma paciência quase meditativa, já que algumas terras vêm duras como pedras e precisam ficar dez dias de molho até se dissolverem por completo. Depois, passam por diferentes coadores e por um filtro de pano até que reste apenas uma massa finíssima e maleável, pronta para ser moldada e assada em um forno a lenha por até quinze horas seguidas. A natureza dali oferece tons de branco, vermelho, amarelo e rosa, guardando a rara argila preta para os picos mais altos da Cordilheira dos Andes.
| Romanita em ação - Foto: Mariana Otero |
No seu ateliê chamado Madre Tierra, integrado ao projeto catamarqueño de turismo sensorial, o que Ramonita mais gosta de fazer são panelas e utensílios úteis. Ela garante, com os olhos brilhando, que o locro e até uma simples xícara de chá ou um gole de vinho ganham um sabor completamente diferente quando tocam o barro. Ao nos convidar para botar a mão na massa e moldar nossa própria peça, Ramonita compartilha muito mais do que técnica. Ela nos dá perspectiva e nos mostra como as herdeiras de Lola Mora continuam transformando a crueza do chão em arte generosa, com as mãos.
Quando o sol se esconde atrás das montanhas e a noite chega, essa mesma memória norteña deixa de ser moldada no barro para ser cantada a plenos pulmões. É hora de colocar as ferramentas de lado e seguir o som dos violões até as peñas, onde outras mulheres guardam as chaves da noite, da boemia e da voz mais profunda da América Latina.
As guardiãs da música e da boemia
No noroeste argentino, o folclore tem algo de ritual, de sagrado. Ele acontece muito dentro das peñas, aquelas casas que promovem encontros tradicionais onde as pessoas se reúnem ao redor de mesas fartas para tomar vinho, comer empanadas e cantar madrugada adentro. Não dá para dizer que conhece a região sem passar por um desses templos boêmios. Mas o que pouca gente nota, enquanto os violões e os bombos legüeros ditam o ritmo das zambas e chacareras, é quem realmente segura as chaves dessas casas quando as luzes se acendem e a música começa.
A maior prova disso fica em Salta. Existe um ditado local que avisa que quem não conhece Balderrama, não conhece Salta. Imortalizada na voz inigualável de Mercedes Sosa através da famosa zamba composta por Cuchi Leguizamón e Manuel Castilla, a Peña Boliche Balderrama é o berço da boemia norteña.
O armazém nasceu em 1922 e virou o ponto de encontro obrigatório de poetas e cantores. Juan Balderrama, o fundador histórico, já morreu, mas a casa segue de pé. Hoje, quem está à frente dessa instituição é sua esposa, Julia, ao lado das filhas Patricia e Noemí. São elas as guardiãs da herança que Mercedes cantou décadas atrás.
Essa liderança feminina silenciosa que move as engrenagens da noite se repetiu quando cruzei a fronteira da província vizinha. Em pleno centro de San Miguel de Tucumán, a Peña Cultural El Cardón funciona em uma casona do século 18 que já foi cenário de episódios da própria Independência argentina, servindo de ponto de encontro estratégico para grandes figuras da libertação sul-americana. Há cerca de quinze anos, quem gerencia o espaço é Silvia Liliana Campero, a Lili, que faz questão de reforçar que o lugar não é um restaurante, mas uma cantina cultural.
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| Liliana Campero e seus reconhecimentos em Tucumán - Foto: Santiago Peñaranda |
Dali de dentro, Lili comanda o pátio e a cozinha, que chega a produzir mais de duzentas dúzias de empanadas tucumanas artesanais em feriados históricos. É ela quem garante que a história e a cultura da província continuem sendo provadas através dos sentidos.
No entanto, durante os meus dias de estrada, essa onipresença feminina nos bastidores revelou um contraste incômodo. Embora as mulheres cuidem da cozinha, gerenciem o negócio e assumam o papel de guardiãs da memória, os palcos das peñas continuam sendo um território quase que exclusivamente dominado por homens. Rodei por dezenas de apresentações, vi grupos e solistas se revezarem sob os refletores em uma sequência quase interminável de vozes masculinas.
Nas peñas que visitei, só uma mulher subiu ao palco. Foi em Tucumán, a terra de Mercedes Sosa. Onde mais? No pátio histórico da Lili Campero, Adriana Tula soltou a voz cantando um repertório que incluía a própria Mercedes, e o ar da cantina pareceu mudar. Entre as canções estava Alfonsina y el mar, que conta os últimos passos da poeta Alfonsina Storni rumo ao mar de Mar del Plata, uma mulher que levou suas dores em silêncio até o fim. As pessoas pararam para prestar atenção no que ela cantava. Era uma música sobre uma voz calada, cantada por uma voz que ninguém ali conseguiu ignorar. Aquilo era um lembrete de que a força da mulher no folclore norteño é imensa, mesmo num palco ainda dominado por homens. Mercedes Sosa abriu os caminhos com o peito, e são mulheres como Julia, Patricia, Noemí, Lili e Adriana que continuam garantindo que a noite do norte não perca a sua identidade mais profunda.
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| Adriana Tula é a voz da noite tucumana |
Quando o eco dos bombos finalmente silencia e a madrugada dá lugar ao amanhecer, a resistência desse povo deixa as mesas boêmias para caminhar sob a luz do sol. É hora de entender como essa mesma garra feminina, que hoje sustenta as peñas, já se articulava ao longo da própria história do país. No próximo e último capítulo, vamos descobrir as estrategistas que moveram províncias inteiras para defender seu território no passado e no presente.
As estrategistas da resistência
Para que a história oficial aconteça na linha de frente, alguém precisa desenhar os bastidores. No século 19, enquanto o general Martín Miguel de Güemes liderava os Infernales nas batalhas pela independência no norte argentino, a inteligência estratégica do movimento funcionava sob o comando de sua irmã. Magdalena Güemes, a Macacha, foi a mente política da resistência. Ela coordenava redes de espionagem, costurava acordos diplomáticos e mantinha o território articulado quando tudo parecia desmoronar. Curiosamente, depois de visitar algumas casas e museus dedicados à história de seu irmão, pouco ouvi falar dela. Duzentos anos depois, cruzar o país na fampress mais longa da história do jornalismo de turismo me provou que essa capacidade feminina de mover províncias inteiras continua operando exatamente no mesmo lugar, longe dos holofotes.
Embarquei no dia 1 da fampress e cheguei à Argentina no dia 2, com a engrenagem já em movimento. Isso tornou meu contato com Elba Romero breve, mas marcante. Responsável pela etapa em La Plata, ela fez questão de acolher pessoalmente os jornalistas que se integraram ao grupo depois do início. Elba refez a pé um circuito express, dessa vez ela mesma apresentando a cidade aos retardatários, com os prédios mais icônicos e a joia arquitetônica local, a Catedral Inmaculada Concepción. Foi o primeiro sinal de uma liderança que sabe que nenhum detalhe ou visitante pode ficar para trás.
Quando a rota avançou em direção ao norte profundo, a viagem cruzou o caminho de Lucia Sant, uma figura cuja identidade se mistura completamente com a província que representa. A meu ver, Lucia é o verdadeiro cartão-postal de Jujuy para o mundo. O seu orgulho regional é tão evidente que fica impossível defini-la apenas como argentina; ela é, essencialmente, jujeña. Nosso primeiro encontro aconteceu em janeiro de 2026, durante uma viagem de imprensa no Panamá. Bastou que eu expressasse minha curiosidade sobre essa porção andina do mapa para que Lucia pusesse sua capacidade de articulação em movimento e me abrisse as portas para as maravilhas de sua província.
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| Em cima: Elba e Lucía / Embaixo: Debora e Maru |
Essa mesma energia resolutiva ganhou contornos de urgência quando chegamos a Salta pelas mãos de Maria Ulivi. Maru pertence ao grupo de pessoas que não esperam as coisas acontecerem, elas agem e resolvem. Diante de um desafio logístico complexo na hospedagem do grupo, ela acionou seus contatos e conseguiu, de última hora, através de sua amiga Judith Cohen, dona do Hotel Íris, acomodar todos os jornalistas em um único local. Em uma viagem com dezenas de profissionais de comunicação de diferentes países, garantir essa unidade foi a jogada estratégica que manteve o ritmo e a unidade do grupo.
A última grande fronteira dessa jornada foi desvendada por Debora Ruiz, a mente por trás da nossa imersão em Tucumán e Catamarca. Debora foi a responsável por me apresentar a uma parte da Argentina da qual eu nunca tinha ouvido falar. Ao longo dos meses antecedentes à viagem, ela me repetia constantemente que Catamarca era uma joia bruta. Foi na Ruta de los Seismiles que eu entendi o que ela queria dizer: as paisagens que beiravam o extraterrestre mudavam a cada dezena de quilômetros, num dos cenários mais impressionantes que já vi em minhas andanças pelo mundo.
Se no passado Macacha Güemes operava a diplomacia e a espionagem sem receber o devido crédito, como percebi nos museus que visitei, no presente são mulheres como Elba, Lucia, Maria e Debora que desenham as estratégias para que o mundo consiga enxergar essas províncias. Elas são uma espécie de Infernales modernas, arquitetando rotas e resolvendo crises.
Termino essa jornada de mais de três semanas com a certeza de que a herança da Pachamama está longe de ser um mito distante. Ela tem o rosto, as mãos e a garra de cada Susana, Lara, Ramonita, Julia, Lili, Adriana e de cada anfitriã que fez a poeira dessas estradas virar história. O norte da Argentina é imenso na sua geografia, mas é a força invisível de suas mulheres que o torna verdadeiramente gigante.
Dedico esse texto a todas as outras mulheres, companheiras de caminhada, jornalistas e profissionais do turismo, que percorreram a Argentina junto comigo: Cristina Rosario, Faby Tonetto, Gabriela Almeida, Gabriela Rodman, Jacqueline Granda, Luisa Rodríguez, Maria Aurelia Mandieta, Mariana Otero, Marta Díaz e Naivi Frias.
❗❗❗O Raphanomundo viajou para a Argentina a convite da OMPT para participar do maior fampress do jornalismo turístico da história.






Qeu texto importante, que viagem bonita! PArabéns, Rapha. Você é demais!!
ResponderExcluirmuito obrigada por suas palavras, que a gente siga podendo contar a história de mulheres incríveis.
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