Viajando de campervan pelo sul da Alemanha

Quem acompanha a gente nas redes sociais já sabe que no final de julho nos lançamos numa viagem inusitada. Por causa do meu pai sempre nutri a curiosidade de como seria viajar num Motor Home e, desde que vim morar na Alemanha, achei que aqui seria o lugar para ter essa experiência. Obviamente que com a grande oferta de voos, trens, acomodações, enfim, formas mais práticas de viajar, essa ideia foi ficando apenas no campo do planejamento e nunca saiu do papel. Até que veio a pandemia do coronavírus e com ela, as restrições de viagens, o distanciamento social, o reforço nas medidas de higiene e mais um sem fim de mudanças no dia-a-dia do mundo todo. 


Enquanto a gente tentava entender o que estava acontecendo e se acostumar às mudanças, fomos pensando em como poderíamos viajar de forma segura durante a pandemia. Aqui na Alemanha, país reconhecido como um dos que melhor enfrentou a primeira onda da covid-19, a vida voltou a ter um quê de normalidade em junho, coincidentemente ou não, a tempo de salvar as férias de verão. Até cheguei a publicar aqui uma ideia de como seriam as viagens enquanto o mundo atravessa uma pandemia. Uma das apostas, foi o uso do motor home/trailer/campervan como meio de viagem, e uma outra, era o turismo de natureza, em meio ao verde, evitando os grandes centros. 

É bem verdade que a gente não cogita até hoje a possibilidade de entrar num avião, trem ou ônibus, nem tão pouco a hospedagem em um hotel ou apartamento de temporada, mas com a taxa de contágio na Alemanha bem controlada e os números de infectados sempre baixos, ficamos tentados a arriscar uma viagem pelas redondezas, dentro do país, levando um pedaço da nossa casa conosco. Foi aí que tivemos a ideia de botar o planejamento em prática e alugar uma campervan

O que é uma campervan, Rapha?

Das opções que existem no mercado de “casa sobre rodas”, a campervan foi a que mais bateu com nosso estilo de viagem. Ela consiste em um veículo tipo van, modificado para ter as funções de uma casa. Ele pode vir de fábrica já com esses itens ou, o que é mais comum, ele pode ser adaptado às necessidades de cada viajante, customizado pelo próprio dono. Inclusive #VanLife é um movimento que vem crescendo com o passar dos anos (ainda mais agora durante a pandemia) onde as pessoas adotaram como estilo de vida a moradia nesses veículos adaptados. Perco horas vendo as soluções pra lá de criativas que são dadas aos espaços diminutos das vans. 


Escolhemos a campervan justamente pelo seu tamanho e mobilidade, como queríamos além de experimentar esse novo jeito de viajar, ir até alguns pontos turísticos naturais aqui da Alemanha, um carro de tamanho reduzido facilitaria essa movimentação. Para isso, alugamos uma van da Mercedes-Benz, modelo Marco Polo, que tem cozinha equipada com mesa, fogão, geladeira, pia, além de cama no teto e embaixo. 

Onde estacionar a campervan?

Pesquisei bastante sobre como viajar de motor home/campervan aqui pela Alemanha e descobri um mundo novo de regras. Mas a primeira delas é que o país tem muitas áreas de camping, que também recebem os viajantes sobre rodas, mas também há várias modalidades de estacionamentos e pernoites. As fotos que vemos no instagram, de carros estacionados em paisagens estonteantes, pernoitando à beira-mar, ou em campos de girassóis, provavelmente estão fazendo wildcamping – traduzindo livremente para o português, acampamento selvagem – e essa prática é ilegal em muito países, inclusive aqui na Alemanha. Há quem arrisque e nada aconteça, mas caso o viajante seja pego acampando/estacionado pernoitando em área proibida, as multas podem ser bem salgadas e podem variar entre 15 e 500 euros, segundo o catálogo de multas. 




Mas descobrimos na prática também que os acampamentos maiores, que ficam perto de lagos como o Bodensee, em Baden-Württemberg, ou Walchensee e Eibsee, na Bavária, ficam lotados por todo o verão. E, caso a ideia seja ficar mais de uma noite e curtir a infraestrutura desses campings – que muitas vezes contam com banheiros, supermercados, restaurantes, cafés, área para crianças, máquinas de lavar roupas – é preciso reservar com bastante antecedência. Como nossa ideia era apenas pernoitar e seguir viagem toda manhã seguinte, descobrimos que para nós o indicado seria procurar pelos Wohnmobilstellplätze, ou seja, estacionamentos próprios para trailers. 

Quanto custa pernoitar com a campervan?

Achamos nossas opções procurando em aplicativos como o Park4Night e o próprio Google Maps. Esses estacionamentos têm vagas delimitadas e são self-service, ou seja, você chega com o carro, vê se tem uma vaga que te agrada, estaciona, faz o pagamento normalmente em máquinas, recolhe o ticket e está livre para pernoitar. Geralmente esses estacionamentos têm infraestrutura para descarte de dejetos e/ou água cinza, água potável, energia, wi-fi e, raramente, um apoio com banheiro. Os preços são bem acessíveis, cerca de 10 euros o pernoite, e alguns deles todas as facilidades estão embutidas no valor. Outros, é preciso pagar tudo por fora, normalmente, usando moedas. 


Nosso roteiro de campervan pelo sul da Alemanha 

O ponto de partida da nossa viagem, que começou numa segunda pela tarde, foi aqui em Stuttgart, onde moramos. Seguimos para a região da Schwarzwald (Floresta Negra) e pernoitamos em um lugar estratégico para na manhã seguinte para visitar a Triberger Wasserfälle (Cachoeira de Triberg), uma das quedas d’água mais altas da Alemanha. Após a visita, partimos em direção ao Allgäu região entre os estados de Baden-Württemberg e Bayern famosa pela sua agricultura e belíssimas paisagens. Para chegar à Scheidegg Wasserfälle  outra cachoeira que colocamos no nosso roteiro –, tivemos a excelente companhia do Bodensee, ou Lago Constança, em parte da rota que escolhemos percorrer. Nesse dia, pernoitamos em um estacionamento na pequena cidade de Wangen


Na manhã seguinte, terceiro dia da viagem, fomos visitar o Breitachklamm, um desfiladeiro que atrai mais de 300.000 visitantes anualmente à região de Obersdorf. Pernoitamos a meio caminho de distância da atração do quarto dia de viagem, a Kuhfluchtwasserfälle, em Farchant, Bavária. Dali, a ideia era esticar até o Eibsee, mas por ser alta temporada, os estacionamentos da região estavam lotados e o caminho até o lago foi fechado. Então seguimos para a nossa segunda opção, o Walchensee. Me arrisco a dizer que qualquer lago que se escolha para visitar na Bavária, vai ser uma paisagem bonita de se ver. 


Ao final do dia, retornamos ao Allgäu para passar a penúltima noite da nossa viagem de campervan pelo sul da Alemanha. Acordamos cedo nessa sexta-feira e seguimos rumo ao Bodensee, nossa última parada antes do fim da viagem. Curtimos esse dia no lago que faz fronteira com a Alemanha, Áustria e Suíça. Passamos a última noite em um estacionamento a 120km daqui de Stuttgart, para na manhã seguinte, no sábado, viajar apenas para fazer a devolução do carro. 


Vale a pena viajar numa campervan


Para nós, essa viagem foi uma ótima introdução a esse novo jeito de viajar. Claro que sair por aí, com a casa nas costas, demanda uma energia extra, pois você é responsável por suas refeições, pela organização e limpeza do espaço, por dirigir, além de curtir a viagem e os atrativos em si. Em todas as paradas do nosso roteiro, fizemos trilhas e caminhadas nos pontos turísticos, o que pedia uma disposição a mais do nosso corpo. Até pegarmos o jeito e sacar que viver nesse espaço diminuto é como um quebra-cabeça, levou um tempo, mas depois de azeitados, apreciamos mais a viagem. 


No fim, tudo depende do objetivo de quem viaja, carros maiores proporcionam mais conforto, mas podem ser um desafio caso a ideia seja visitar pontos turísticos. Já nos carros menores, se abre mão de espaço e conforto, mas a mobilidade é ainda maior. O mundo está passando por uma mudança e acredito que viajar como viajávamos antes não será possível tão cedo, então testar novas formas e se reinventar é um exercício que vale a pena desde que a gente não se coloque em risco. Após a viagem, tomamos a precaução de ficar 2 semanas em casa e, felizmente, permanecemos saudáveis. 

Rapha Aretakis

Viajante e sonhadora em tempo integral. Edito, escrevo e fotografo para o Raphanomundo desde 2010. Nascida no Recife, criada para o mundo, vivendo em Stuttgart, Alemanha.

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