Cheguei já à noite e fui direto ao Mamaniva, restaurante à beira-mar da Playa La Angosta. Enquanto os tambores do Congo soavam ao fundo, provei um ceviche tão fresco, quase solar, mesmo sendo noite. Depois vieram mariscos acompanhados de arroz con coco y frijoles, mistura que, para mim, soa familiar, mas traduz o Caribe em aroma e sabor. Várias formas de cocada como sobremesa fecharam essa rápida introdução. Ficou claro que eu não estava conhecendo uma cozinha pensada para impressionar turistas, tudo foi servido de forma simples, sem luxo, mas naquele momento eu já sabia que havia provado uma comida cheia de história.
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| Prato do Restaurante Mamaniva cheio de sabor do Caribe panamenho e história |
Saí do jantar ainda sem compreender Portobelo, mas certamente já tinha começado a senti-la.
No dia seguinte, a cidade começou a se revelar de outra forma. Acordei de frente para o mar do Caribe, no
El Bongo Hotel Boutique, com a sensação de estar praticamente suspensa sobre a água. O vento estava mais forte do que o habitual. Um ciclone bomba avançava pelo mar e seus efeitos também chegaram até nós, impedindo que eu desfrutasse como gostaria daquele privilégio. Ainda assim, tão perto da água, ouvir o barulho frequente das ondas e sentir o ar salgado logo cedo era um lembrete claro de onde eu estava. Em Portobelo, o mar é uma constante.
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| Hospedagem privilegiada debruçada no mar do Caribe |
Depois desse despertar com o mar agitado, mergulhei na história da cidade, mais precisamente no Museo de la Memoria Afropanameña, instalado no antigo prédio da Alfândega. Ali, Portobelo começou a se revelar com mais clareza. A cidade é um porto histórico do Caribe panamenho onde fortalezas coloniais, comércio transatlântico e tradições afrodescendentes se misturam. Fotografias, documentos e objetos retratam trajetórias ligadas à cultura Congo, reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. É dessa tradição que nasce a curiosa figura do diablo Congo, personagem teatral que encarna as forças opressoras do período colonial. Nas encenações, ele provoca, ameaça, faz alarde, mas nunca vence. A mensagem não precisa ser dita em voz alta, mas sabemos que em Portobelo a resistência se transformou em cultura viva.
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| Fachada restaurada do antigo prédio da Alfândega de Portobelo |
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| Um pouquinho da importante exposição permanente do Museo de la Memoria Afropanameña |
Para aprofundar ainda mais esse entendimento, seguimos até a Oficina de Turismo, conhecida como La Casa Amarilla. No casarão colonial restaurado funciona um centro de visitantes enxuto, mas muito bem estruturado. A exposição apresenta de forma clara os principais marcos históricos e culturais da cidade. A parte dedicada à gastronomia, estrategicamente posicionada na cozinha da casa, chamou especialmente minha atenção. Em uma tela interativa, era possível acompanhar o preparo de alguns dos pratos mais simbólicos da culinária local. Entre eles, o fufú. Assisti ao passo a passo da iguaria sem imaginar que, poucas horas depois, ela seria a protagonista da minha mesa. Por ora, era apenas mais um elemento da tradição exibido na tela.
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| "Vive la cocina de Portobelo" na Oficina de Turismo da cidade |
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| Outrora estratégica, hoje a vista do Fuerte Santiago el Viejo para a Baía de Portobelo é privilegiada |
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| Para quem gosta de street art, design gráfico e tipografia a estética dos ônibus de Portobelo, no Panamá, são um prato cheio |
Seguindo o passeio pelo centro histórico, chegamos ao
Fuerte Santiago de la Gloria, também conhecido como
Santiago el Viejo. Construído no século XVII para proteger a baía dos ataques constantes de piratas e potências rivais, o forte integra o sistema defensivo que transformou a cidade em peça-chave do império espanhol no Caribe. Dali, com vista ampla para o mar, hoje, salpicado de veleiros, chega a ser difícil imaginar navios de antigamente surgindo no horizonte, mas dá para entender por que aquele trecho de costa era tão disputado.
Depois da imponência silenciosa do forte, Portobelo volta ao seu ritmo cotidiano, onde
ônibus coloridos cruzam as ruas como galerias móveis. Pintados com imagens vibrantes, frases e referências populares, são parte da paisagem e da identidade local, lembrando que a estética do Caribe panamenho pulsa no dia a dia. Na praça central, a minha viagem ganha outra camada de sabor. Provei
yuca frita, bem crocante por fora e macia por dentro, e cocada doce na medida certa, quitutes que alimentam instantaneamente minha memória afetiva. O nordeste do Brasil carrega similaridades com tantos lugares do mundo, sorte a minha poder provar e reconhecer essas afinidades em tantos deles.
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| Gostinho de casa: cocadas de várias cores e vários sabores na praça central de Portobelo |
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| Aprendi que no Panamá se chama Yucado, mas eu já conhecia por Bolo de Macaxeira |
Na minha segunda noite em Portobelo o jantar à beira-mar na
Morada de la Bruja foi como condensar tudo o que vi até então em um prato, o fufú. E, nesse momento, você deve estar se perguntando o que é. Explico: esse preparo é uma sopa densa, cheia de sustança (como falamos na minha terra), feita à base de caldo de peixe, inhame, banana-da-terra e, possivelmente, outros tubérculos cozidos até quase se desfazerem. Açafrão, coentro e leite de coco trazem cor, aroma e sabor, enquanto o prato é coroado com um belo pedaço de peixe frito. Que obra de arte gastronômica. Servida com uma porção de arroz de coco do lado, desde a primeira colherada comprovei que ali a história se mantém viva, que o fufú é a síntese de um lugar que resiste. De sobremesa, adocei a boca com um
yucado, que em bom português (ou seria nordestinês?) podemos chamar de bolo de macaxeira.
Como é possível me sentir familiarizada em tão pouco tempo?
Meu último dia na cidade começou em frente ao
Santuário Jesús Nazareno, onde está a imagem do
Cristo Negro de Portobelo, uma das mais veneradas do Panamá e centro de uma das maiores peregrinações religiosas do país, realizada todos os anos em 21 de outubro. De lá seguimos para a
Casa de la Cultura Congo, um espaço público, aberto e inclusivo, criado para promover e preservar a riqueza da cultura afrodescendente do Panamá. Ali encontramos exposições, obras de arte e artesanato, além de ateliês com gente literalmente com a mão na massa, um lugar onde a tradição se transforma em inspiração e oportunidade para todos.
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| Arte e artesanato criados em Portobelo, Panamá |
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| Mãos habilidosas em ação na Casa de la Cultura Congo |
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| Santuario Jesús Nazareno de Portobelo |
A
Escuelita del Ritmo, um verdadeiro xodó, foi nossa última parada nessa viagem por Portobelo. Há 15 anos, a iniciativa utiliza a
música como ferramenta de inclusão e mudança social, incentivando crianças e jovens da cidade a se tornarem protagonistas da própria cultura e, por meio dela, fortalecerem sua identidade e melhorarem sua qualidade de vida. Um trabalho que me emocionou pela força e pela simplicidade, a música pode salvar vidas.
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| A escolinha do ritmo é uma iniciativa de extrema importância em Portobelo |
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Já nos encaminhando para o fim dessa degustação de Portobelo, fomos brindados por uma apresentação de Congo por um grupo de crianças que deixou claro que, se depender delas, a cultura Congo seguirá viva e pulsante. Uma preciosidade. Diante daqueles pequenos guardiões do ritmo, entendi que Portobelo é um lugar de continuidade, não apenas de memória. A cultura Congo não sobrevive somente nas paredes dos museus, ela vibra nos tambores, nas cozinhas, nas praças e nas mãos das crianças que aprendem desde cedo o valor da própria história.
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| Vendo os detalhes da cultura Congo de perto na Casa Congo, em Portobelo |
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| Feliz em testemunhar a continuidade de uma cultura tão rica |
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| Eu e as crianças que guardam o futuro de Portobelo e da cultura Congo |
Se no primeiro dia eu cheguei sem saber exatamente onde estava pisando, parti com a sensação de ter provado algo essencial. Entre tambores e sabores, Portobelo se revelou como se faz uma boa receita: com tempo, camadas de história e muito afeto. E o gosto que fica não é apenas o do
fufú ou do
yucado, mas o de um lugar que soube transformar resistência em identidade e tradição em futuro.
Serviços e informações, visite:
👉 La Escuelita del Ritmo de Portobelo @la_escuelita_del_ritmo
❗❗❗O Raphanomundo foi ao Panamá a convite da OMPT para participar da 11a edição do Prêmio Pasaporte Abierto e atividades relacionadas.