Minha passagem por Aveiro começou no
Hotel do Mercado, charmoso, confortável e bem localizado, excelente ponto de partida para quem vai explorar Aveiro a pé. Logo pela manhã, pela proximidade com o local, não deu pra não passar no
Mercado Manuel Firmino, um mercado pequeno, tradicional, onde a vida cotidiana se encontra com a impermanência do turista. A visita foi rápida e, com o apetite devidamente aberto pelo passeio no mercado, só nos restou dar um pulinho na
Tasca do Amarelinho. Com um cardápio promissor escrito na parede e o ambiente tomado por antiguidades, o jeito foi provar um pouco de cada coisa:
caldo verde,
bolinho de bacalhau,
moelas,
sandes de pernil com queijo da serra e a
feijoada de leitão. Eu disse que a gente estava com fome, né?
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| Pequeno, mas charmoso, o Mercado Manuel Firmino vale uma passadinha |
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| Feijoada de leitão da Tasca do Amarelinho, o que não tem de fotogênica tem de gostosa |
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| Prove o sanduíche de pernil com queijo e um chopp gelado |
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| De nome curioso, não pude deixar de provar (e aprovar) a famosa Tripa de Aveiro |
A comida portuguesa é o que me faz querer voltar sempre pra lá, principalmente quando estamos há muito tempo na Alemanha. De buchinho cheio, seguimos para provar uma sobremesa de nome intrigante, a Tripa de Aveiro, um doce típico da cidade feito de creme de açúcar e ovos, criado na tradição da doçaria conventual. Eu fiz questão de não procurar previamente em lugar nenhum para saber do que se tratava, fui com mil pensamentos e me surpreendi, é uma delícia e nada estranho.
Arquitetura Art Nouveau em AveiroNão dá para explorar Aveiro sem mergulhar na sua
história arquitetônica. O centro histórico da cidade está polvilhado por fachadas em
estilo Art Nouveau, uma coleção de cerca de 28 edifícios que surgiram entre 1904 e 1920, muitos com azulejos florais e detalhes em ferro que misturam modernidade com tradição portuguesa, deixando o estilo único. O
Museu Arte Nova, na
Casa Major Pessoa, é um ótimo ponto para começar essa empreitada pela arquitetura aveirense, ou se aprofundar no tema. Caminhar atento entre as ruas é descobrir, a cada esquina, uma nova característica da Arte Nova que chama a atenção. Por isso, olho aberto!
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| Fachada em Art Nouveau da Antiga Casa Major Pessoa |
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| Edifício em estilo Art Nouveau de Aveiro |
Passeio de moliceiro pelos canais
Mas um dos momentos altos desses dois dias em Aveiro foi o passeio de barco típico pelos canais, onde vi a cidade de um ângulo único e aprendi sobre sua relação com a água. O moliceiro, como é conhecida a famosa embarcação, é um barco estreito e comprido, tradicionalmente usado para a colheita do moliço, uma espécie de alga que era coletada para fertilizar os campos da região. Suas cores vibrantes e as pinturas decorativas na proa e popa tornam cada barco uma obra de arte flutuante e única, muitas vezes com frases engraçadas ou sátiras políticas.
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| Não deixe de percorrer os canais de Aveiro a bordo de um barco tradicional da cidade |
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| Todo mundo fica encantado com o vai-e-vem dos Moliceiros de Aveiro |
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| Anita Tubarão dos Oceanos, mural de street art em Aveiro |
A cidade de Aveiro nasceu e se desenvolveu em torno da
Ria de Aveiro, um sistema de canais e lagunas ligado ao oceano Atlântico. A presença constante da água moldou tanto a economia quanto a cultura local, da pesca e da navegação à produção de sal e ao transporte de mercadorias. Os canais permitem que os moliceiros naveguem mesmo em marés baixas, graças à engenhosidade local, foi criado um sistema de portos e comportas para controlar o nível da água, garantindo que a cidade permanecesse ligada ao mar sem ser inundada.
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A Salineira, Aveiro
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| Escultura Ovos Moles de Aveiro vista a bordo de um Moliceiro |
Depois do passeio pelos canais, a caminhada seguiu pelas ruas do centro histórico e foi lá que encontrei
A Casa da Rosa, uma lojinha que faz qualquer amante do design e da decoração pirar. Queria trazer tudo pra casa, mas me contentei com um azulejinho mal criado. A seleção de souvenirs mais moderninhos é maravilhosa, desde leques até bijuterias, as opções são ótimas para encher a mala.
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| A Casa da Rosa, no centro histórico de Aveiro |
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| O delicioso Polvo à Lagareiro do Restaurante O Barril, em Aveiro |
A hora do almoço foi chegando e, em Portugal, todo lugar parece apetitoso, é preciso ter cuidado para não cair em furada. Nos afastamos um pouquinho do burburinho da área turística até que chegamos ao restaurante O Barril. Fomos atendidos por um simpático casal, ela ficava a cargo de atender as mesas e ele comandava o fogão. De entrada tomamos um caldo de legumes e, como prato principal, um dos melhores polvos que já comemos. Meia dose de Polvo à Lagareiro, fresquíssimo, bem feito. Tudo isso regado a vinho verde porque aparentemente é impossível fazer uma refeição sem vinho em Portugal. Isso, definitivamente, não é uma reclamação.
Bate-volta em Costa Nova
Para fechar essa introdução a Aveiro, esticamos Uber até Costa Nova do Prado, famosa pelas casas coloridas, chamadas palheiros, e pela Praia da Costa Nova. Essas casas listradas, originalmente construídas pelos pescadores, são hoje ícones fotogênicos da região e um dos cartões-postais mais charmosos de Portugal. Caminhar por ali, sentir a brisa do Oceano Atlântico e observar o contraste entre a Ria e o mar é muito agradável. Para completar a experiência, escolha uma das barraquinhas do calçadão e prove uma fartura. Vai por mim, o nome já é maravilhoso, e a fartura é comida de rua da mais simples, essa massinha frita envolvida em açúcar e canela deixa qualquer pausa no passeio deliciosa.
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| As famosas casas listradas de Costa Nova, cartão postal da região de Aveiro |
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| Fartura à beira-mar em Costa Nova |
De volta à Aveiro, finalmente provei os famosos ovos moles, o doce mais icônico da cidade, e entendi por que ele é levado tão a sério por ali. Compramos uma caixinha na famosa
Confeitaria Peixinho e fomos degustar no
terraço do Fórum Aveiro, de onde temos uma vista privilegiada da região, dos canais, da colorida
Ponte dos Laços de Amizade, do vai-e-vem dos moliceiros...
Aveiro é daquelas cidades que não precisam de muito esforço para conquistar, basta caminhar, observar e provar. Foram apenas 36 horas, tenho a sensação de que o essencial foi vivido, mas também tenho a certeza de que sempre terei um motivo para voltar.