ƒ Um dia em Tucumán, a terra de Mercedes Sosa

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Um dia em Tucumán, a terra de Mercedes Sosa

Tucumán é uma província pequena do noroeste argentino, que costuma passar despercebida em roteiros turísticos mais famosos da região, como os de Salta e Jujuy. Mas, apesar de ser a menor do país em território, carrega um peso histórico e cultural enorme para a Argentina.






Minha passagem pela província durou apenas um dia, mas foi o suficiente para perceber que Tucumán é muito mais do que o apelido de "Jardim da República" faz imaginar. Entre a memória de Mercedes Sosa, a história da independência argentina, a tradição açucareira e uma noite regada a música e empanadas, foi um daqueles lugares em que cada parada acabava levando a outra história.

Museu Mercedes Sosa

A primeira parada que fiz na cidade foi auspiciosa, no Museo Mercedes Sosa Casa Natal, erguido exatamente onde a cantora nasceu, em 1935, e viveu até os 17 anos. A casa pertencia à família desde 1880 e ficou abandonada por décadas, até ser reconstruída e reaberta como museu em 2021, com depoimentos de irmãos e familiares da artista distribuídos pelos seus cômodos.

Para quem, como eu, se interessa muito por música, estar ali tem um peso diferente. Não é apenas conhecer a trajetória da cantora argentina, mas caminhar pelos cômodos da casa onde ela nasceu e passou os primeiros 17 anos de vida.

Mercedes Sosa, La Negra, foi uma das maiores vozes do folclore latino-americano e um dos grandes nomes da chamada Nova Canção, movimento que aproximou música popular e engajamento político na América Latina. Viveu anos de exílio na Europa durante a ditadura argentina e voltou ao país em 1982, continuando a cantar até sua morte, em 2009.

Talvez por isso seja tão diferente entrar naquela casa sabendo tudo o que aconteceria depois. Ali ainda não existe a grande voz que a Argentina transformaria em símbolo, ali era apenas a casa da menina que nasceu naquele lugar, décadas antes de sua arte ganhar o mundo.

Ainda assim, é mais um museu do que uma casa, para quem possa imaginar uma casa-museu nos moldes da Casa Azul, de Frida Kahlo, na Cidade do México. Os ambientes foram reconstruídos e a experiência é muito mais voltada à trajetória da artista do que à preservação de uma casa exatamente como ela era.

Museo de la Industria Azucarera

A história da cana-de-açúcar em Tucumán me era familiar antes mesmo de eu conhecer o museu. Sendo de Recife, Pernambuco, cresci sabendo o quanto esse cultivo pode moldar uma região inteira. Por isso, o Museo de la Industria Azucarera, instalado na Casa Obispo Colombres, acabou sendo uma das visitas que mais me fizeram pensar no Brasil durante a viagem.

O casarão do fim do século 18 fica no meio do Parque 9 de Julio. Foi ali que o bispo José Eusebio Colombres instalou, em 1821, o primeiro trapiche açucareiro de Tucumán, dando início à indústria que até hoje sustenta boa parte da economia da província. A casa foi declarada Monumento Histórico Nacional em 1941, e a entrada é gratuita.

Logo na chegada, um trapiche de madeira, usado pelos antigos engenhos açucareiros, recebe os visitantes. Dentro, ainda é possível ver objetos e mobiliários da época bem conservados.

Em dado momento, na instalação, há uma área onde fuligens da queima da cana são recriadas, e foi impossível ficar indiferente, naquele momento, Tucumán ficou menos distante de Recife. Histórias que aconteceram em países diferentes, mas que carregam marcas parecidas de um mesmo produto. Saí dali pensando em como a cana-de-açúcar conseguiu moldar identidades tão distintas e, ao mesmo tempo, tão reconhecíveis, de uma ponta a outra do continente.

Casa Histórica de la Independencia

Também visitei a Casa Histórica de la Independencia, carinhosamente apelidada de “la casita de Tucumán”. Foi ali, em 9 de julho de 1816, que os deputados do Congresso de Tucumán assinaram a Declaração de Independência da Argentina.

A casa original foi construída na década de 1760 pela família de Francisca Bazán de Laguna e, anos depois, acabou alugada ao governo revolucionário, que a usou para suas sessões. O apelido “casita” nasceu de uma situação quase irônica. Em 1874, o Estado comprou o terreno e construiu ao redor um prédio enorme para funcionar como Correio e Telégrafos, demolindo quase tudo, exceto o Salón de la Jura, a sala onde a independência havia sido proclamada. Esse salão pequeno e simples, cercado por aquela estrutura gigantesca, passou a ser chamado carinhosamente de “a casita”, e o nome pegou no país inteiro.

Um dos pontos altos da visita é o Patio de Homenajes, na parte de trás da casa, onde dois grandes baixos-relevos em bronze, obra da escultora tucumana Lola Mora, cujo museu visitei em Jujuy, retratam a Revolução de Maio de 1810 e a própria Declaração de Independência de 1816. As obras foram encomendadas em 1903 pelo presidente Julio Argentino Roca.

Em 1941, o conjunto foi declarado Monumento Histórico Nacional e, em 1943, a reconstrução devolveu à casa uma aparência próxima da original de 1816, a mesma que existe até hoje. A entrada é gratuita, e há até um espetáculo de luz e som que recria os acontecimentos daquele dia histórico.

Uma volta noturna pelo centro histórico

À noite, a garoa se instalou confortavelmente, dando a Tucumán um ar bonito e melancólico de fim de inverno. Mas isso não me impediu de sair para caminhar pelo centro histórico, todo concentrado ao redor da Plaza Independencia.

Passei pela Catedral, dedicada a Nuestra Señora de la Encarnación, e vi de fora a Casa de Gobierno, construída entre 1908 e 1912, com sua fachada imponente e suas quatro cúpulas. Segui até o Teatro Mercedes Sosa, que funcionou como cinema entre 1946 e 1992, até ser reformado e reaberto, já com o nome da cantora, em 2014. É engraçado pensar que, naquele mesmo centro histórico, o nome dela aparece em mais de um lugar.

Toda essa caminhada só foi possível porque me hospedei no Amerian, um hotel bem localizado, a poucos metros da Plaza Independencia, o que tornou fácil explorar o centro a pé, inclusive debaixo de garoa.

Música e empanadas na Peña El Cardón

Não poderia ir embora sem conhecer a noite de Tucumán, então fui jantar na Peña El Cardón, fundada em 1947 por um grupo de artistas e intelectuais locais e hoje instalada em uma casona colonial de fins do século 18, na Las Heras. É um point tradicional na cidade, conhecido tanto pela cena musical quanto, principalmente, pelas empanadas.

E as empanadas, gente, foram sem dúvida umas das melhores que comi em toda a viagem. Fritas, bem temperadas e com um diferencial que descobri ali mesmo, elas vêm acompanhadas de limão para espremer por cima. E faz todo sentido, já que Tucumán também é conhecida como a capital mundial do limão, a maior produtora e processadora da fruta no planeta. O toque ácido corta bem a gordura da fritura e dá um sabor completamente diferente do que eu já tinha provado em outras partes da Argentina.

Quando Alfonsina y el Mar começou a tocar, eu já estava no ponto certo para encerrar o dia. Depois de passar por Mercedes Sosa, pela história da independência, pela memória da cana-de-açúcar e, claro, pelas empanadas, ouvir aquela música ao vivo parecia juntar tudo o que eu tinha encontrado em Tucumán em poucas horas. Tucumán definitivamente me surpreendeu. Jardim da República, sim. Mas também, e talvez principalmente para mim, a terra de Mercedes Sosa.

Rapha Aretakis

Viajante e criadora de conteúdo em tempo integral. Escrevo, edito e fotografo o Raphanomundo desde 2010, com trabalhos para marcas e veículos de turismo. Nascida no Recife, criada para o mundo, hoje brasileira alemã.

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