ƒ Das peñas às panelas, Salta me conquistou duas vezes

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Das peñas às panelas, Salta me conquistou duas vezes

Se a música é uma das minhas grandes paixões e foi um dos pilares da minha visita a Salta, acompanhando o ritmo dos bumbos e violões em um tour pelas peñas, a gastronomia é o outro lado essencial dessa jornada. Eu acredito piamente que é dividindo a mesa que a gente se aproxima de verdade de um lugar, deixa as formalidades de lado e tem a chance de compreender sua cultura. Em Salta, logo percebi que essa identidade também se revela nos sabores intensos da boa mesa e nos rituais ao redor do fogo.






Minha primeira parada na cidade, estrategicamente, foi no Adobe Cocina Regional. Famoso pela culinária tradicional, o restaurante número 1 de Salta, segundo o Tripadvisor, funciona dentro do Complejo Adobe, um casarão colonial histórico com mais de 150 anos, localizado bem em frente à Plaza 9 de Julio, a praça principal da cidade. 

Ali, tivemos um menu degustação que serviu como uma introdução perfeita ao noroeste argentino. Veio tudo à mesa, servido com uma mistura de orgulho e convite, "seja bem-vinda, essa é a nossa cozinha, entre e fique à vontade". Como abre-alas, vieram as clássicas empanadas salteñas de carne cortada a faca, pequenas e assadas no forno a lenha. Mas também pude provar as de quinoa, e para minha surpresa, de charqui (sim,  como a nossa carne seca do nordeste brasileiro), além da empanada de lhama, a essa altura do campeonato não tão mais exótica para mim.  O locro, um guisado espesso de milho, feijão e carne, prato quase sagrado em qualquer mesa argentina, veio denso e fumegando. O almoço ainda contava com a humita, uma versão da nossa pamonha, cozida também na palha do milho, adocicada e salgada ao mesmo tempo, assim como os tamales, que trazem aquele conforto imediato de comida caseira. A grande surpresa para mim foi a carbonada, um prato que só provei lá, nesse restaurante, uma única vez. Achei delicioso. E,  ao contrário de todo o resto, não tive oportunidade de repetir a dose ao longo da viagem. Fica a lembrança de um sabor único, com direito a fartura de queijo gratinado por cima. Para fechar essa belíssima introdução à cozinha do norte argentino, não poderia faltar sobremesa. Os postres seguiram me trazendo uma sensação muito familiar. Há uma simplicidade em alguns dos doces dessa porção da Argentina que lembra bastante o aconchego de Minas Gerais ou, de novo, do Nordeste. A combinação de um pedaço de queijo com doce local traz aquele conforto de casa de avó, né? E, muitas vezes, a sobremesa era basicamente isso, um docin com queijo. E se a gente botar uma colherinha de doce de leite, não tem como estragar. Feliz no simples, dizem. Aqui, um recado para os meus compatriotas alemães, os doces argentinos são, de fato, bem doces, mas não deixem de prová-los. 



Agora, para entender um pouco mais do norte de verdade, o melhor é participar do preparo e ver de perto como as coisas são feitas. Esse tipo de experiência é algo que eu nunca deixo passar em uma viagem. E foi na Peña del Olivo, onde tive uma aula de asado argentino gaúcho. Aprendi a fazer um verdadeiro chimichurri, o tradicional molho de churrasco argentino, pude ficar a cargo de assar uma provoleta, além de aprender como os argentinos salgam seus cortes, como bife de chorizo e assado de tira. De quebra, conheci uma das melhores surpresas da viagem, o matambre de cerdo. Que delícia! Ele veio incrivelmente saboroso e macio, bem diferente de qualquer outro corte que eu já provei. Será que tem algo parecido aqui na Alemanha? Aprendi desde pequena a fazer churrasco com meu pai, que simplesmente faz o melhor do mundo, mas confesso que adorei a aula e o jeito lúdico de poder entrar em contato com uma cultura tão rica e ainda sair de lá com um certificado. Nem preciso dizer, claro, que tudo isso foi regado a taças generosas de vinhos de altitude  saltenhos, que parecem carregar no paladar toda a personalidade e a secura da altitude daquela região. Mais do que comer, acredito que essa foi uma celebração à cultura da parrilla argentina.



No dia seguinte, o cenário mudou completamente, nas yungas de San Lorenzo, o Lo de Michel, foi palco de uma nova experiência. Ali subiu um degrau na intimidade e na dificuldade, foi hora de colocar literalmente a mão na massa para aprender os segredos das legítimas empanadas saltenhas. Essa aula ficou a cargo de Matías, o chef de 24 anos, conhecido como o embajador de las empanadas salteñas , que nos ensinou pacientemente todo o passo a passo da iguaria.  Eu já tinha me arriscado a fazer empanadas em casa, e, para mim o grande desafio continuou sendo pegar o jeito do repulgue, aquele fechamento em trancinha bem firme que segura todo o recheio antes de irem para o calor potente do forno a lenha. Acho que preciso de mais algumas aulas in loco...  Brincadeiras a parte, comer uma empanada quentinha, que você mesma ajudou a moldar, recém-saída da lenha é uma espécie de prêmio para qualquer viajante. Ah, e já que eu mencionei San Lorenzo, deixo aqui, publicamente, que os melhores alfajores que provei na viagem estão lá. Só se vendem lá, na Puerta del Sol. Comprem. Provem. Depois me agradeçam. 



Salta me conquistou primeiro pelos ouvidos, mas foi dividindo essas mesas, conhecendo todas essas pessoas, dos garçons aos cozinheiros, que tornaram possíveis essas experiências, entendendo os ingredientes locais e sujando as mãos que eu posso dizer que realmente me conectei com a alma do norte argentino.

❗❗❗O Raphanomundo viajou para a Argentina a convite da OMPT para participar do maior fampress do jornalismo turístico da história.
Rapha Aretakis

Viajante e criadora de conteúdo em tempo integral. Escrevo, edito e fotografo o Raphanomundo desde 2010, com trabalhos para marcas e veículos de turismo. Nascida no Recife, criada para o mundo, hoje brasileira alemã.

2 Comentários

  1. Me encantoooo!!! 😍🇦🇷

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    1. muchas gracias, Salta es especial! espero un día poder regresar y conocer mucho más.

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