Antes mesmo de sair de casa eu sabia que, no momento em que eu pisasse em Marrakech, iria querer provar todos os sabores possíveis. Sim, em todas as minhas viagens é assim, mas meu paladar para a cozinha marroquina estava aguçado desde 2010, quando comprei um livro de receitas temático sobre o país do norte africano e desde então contei os dias para conhecer de perto esses sabores. Obviamente que, enquanto esse dia não chegava, tentei reproduzir receitas em casa. E é bem verdade que essas tentativas de reprodução caseira de couscous marroquino foram totalmente ultrapassadas no segundo em que provei o verdadeiro couscous


Aliás, bastaram 48 horas em Marrakech para eu descobrir que a culinária do Marrocos vai além, muito além mesmo, do famoso couscous. Na minha percepção, os pratos da cozinha marroquina têm um sabor rico, interessante, sem serem pesados. Equilibram perfeitamente os temperos e especiarias, usados em abundância, combinando com o dulçor das frutas secas – não raro provamos pêssegos, ameixas, entre os pratos de carnes e legumes. Carnes de cordeiro, boi e frango são bastante consumidas, mas nos restaurantes que fomos vimos bastantes opções vegetarianas. O Marrocos é grande produtor, dentre outras coisas, de laranja, azeitonas e tomates, e vá por mim, prove tudo o que for possível com esses ingredientes, você não vai se arrepender. 




Como já disse em outros textos, nós visitamos o Marrocos em pleno Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos, onde onde eles jejuam entre o nascer e o pôr do sol. A quebra desse jejum é marcada pelo Iftar ou Ftour, momento em que as ruas das cidades se esvaziam, ficando mais tranquilas, enquanto as casas exalam perfumes deliciosos. Em alguns restaurantes, se chegarmos na hora do Iftar, eles não recusam a nossa entrada, mas da forma mais cordial possível nos explicam que eles estão celebrando o Ramadã e nos pedem para esperar um pouco até que o serviço recomece. Alguns estabelecimentos têm os horários alterados durante esse mês, uns até mesmo, fecham. Durante todo o Ramadã não são oferecidos Food Tours em Marrakech, por isso o mês todo fica bloqueado nos calendários. E é completamente compreensível. Queríamos mesmo ter provado o Iftar em algum restaurante ou casa, mas como descobrimos em cima da hora, todas as possibilidades já estavam esgotadas. Fica para uma próxima. 

Sabendo desses poréns, consegui escolher alguns lugares para comer em Marrakech e compartilho os endereços e impressões com vocês. 

O Atay Cafe-Food foi a nossa primeira parada em Marrakech. Após deixarmos as malas no Riad onde ficamos hospedados, andamos cerca de 200 metros pelas ruelas da Medina e chegamos ao Atay. O restaurante está distribuído ao longo de 4 ou 5 andares, sendo os últimos 3 deles terraços de onde temos uma vista privilegiada dos telhados da Medina, dos muitos minaretes de Marrakech e das montanhas da Cordilheira dos Atlas ao longe. O cardápio é bom e variado, mas nesse primeiro encontro (sim, gostamos tanto que voltamos outra vez), nós fomos de couscous de frango e chá de menta. Fazia um calor absurdo e já havíamos aprendido que o chá quente regula a temperatura do corpo. 




O couscous veio colorido, bem servido e fumegando à mesa. De encher os olhos mesmo, coisa linda. Além disso, chegaram mais três potinhos: mais molho do couscous, um molho de pimenta e, o que veio a ser meu grande amor nessa viagem, Tfaya, cebolas caramelizadas com passas e canela, um sabor que orna perfeitamente com tudo o couscous. A conta deu cerca de 18 euros e o restaurante recebe dinheiro e cartão de crédito. 

Ainda na pegada dos terraços e cafés mais descolados, almoçamos um dia no Nomad. Li que o restaurante era super concorrido, mas chegamos em um dia tranquilo, onde havia bastante mesa no terraço. O calor era terrível, ultrapassava os 40 graus, mas o terraços marroquinos estão equipados com mangueirinhas que lançam de tempos em tempos um spray d’água, deixando o ar mais respirável e o ambiente mais agradável. Alguns restaurantes também disponibilizam uns chapéus de palha tradicionais para os visitantes que querem se proteger mais. O Nomad tem todas essas coisas, além de uma cozinha muito boa. 




Começamos tomando suco de laranja fresco e de entrada pedimos um Gazpacho Marroquino que estava matador. Que delícia! De prato principal, Couscous Nomad e Tajine de carne, acompanhado de um pãozinho típico. Cozinha tradicional marroquina, mas apresentada de uma forma moderna. Não somos muito de sobremesa, mas como vi que eles tinham sorvetes e sorbets com sabores inusitados e feitos na casa, resolvemos experimentar o de Beterraba com Gengibre e o de Abóbora com Açafrão. A refeição no Nomad estava completa e aprovada, bancou o hype em torno do nome. A conta foi um pouco mais salgada, cerca de 49 euros, também podendo pagar em dinheiro ou cartão de crédito. O Le Jardin e o Café des Épices pertencem ao mesmo grupo, então eu arriscaria ir tranquilamente nesses também.


Depois de um dia percorrendo Marrakech de canto a canto sob um calor escaldante, queríamos mesmo jantar em algum lugar perto do Riad. Procurando, achamos o Dar El Walidin, um restaurante simples, onde resolvemos arriscar fazer essa refeição. Totalmente sem noção, chegamos bem na hora da quebra do jejum, mas os homens que nos atenderam foram muito simpáticos desde o começo. Portanto, esperamos sem problema algum, enquanto ouvíamos as músicas do momento que tocavam no radinho do salão. Enquanto esperávamos deu pra observar a decoração, cheia de itens, texturas, tecidos, quadros, desenhos, um deleite para os olhos dos mais atentos. 



A comida segue o tom do restaurante, é simples e caseira. Escolhemos uma Tanjia Marrakchia, um prato típico de Marrakech, repleto de carne temperada com muitas especiarias, cozida e um pote de barro tampado até quase desmanchar. Come-se acompanhada por um pãozinho e nada mais. Quanto sabor! O outro prato recomendado foi a Kafta, que estava bem temperada, acompanhada de legumes e arroz. Comida similar ao que temos no Brasil. A conta deu 18 euros e o pagamento é feito só em dinheiro, mas aceitam euros. Para finalizar, chá de menta e simpatia marroquina. Não sabíamos que Dar, em árabe, significa casa e foi essa a sensação, de que fomos recebidos em casa. No fim, mais uma lição, obrigada em árabe: Shukran

Um lugar que queria muito ter almoçado ou jantado era a Amal, uma associação sem fins lucrativos dedicada ao empoderamento – por meio de treinamento em restaurantes e colocação profissional –, de mulheres desfavorecidas. Essas mulheres têm entre 18 e 35 anos, não têm renda ou têm uma renda muito baixa e estão em situação social difícil, como divorciadas, viúvas, mães solteiras, mulheres que trabalharam como criadas e que tiveram pouca ou nenhuma educação. Amal foi fundada no final de 2012 pela americana-marroquina Nora Fitzgerald Belahcen, como uma resposta às dificuldades enfrentadas por muitas mulheres de Marrakech. Os visitantes podem apoiar a causa seja comendo em seu restaurante – aberto todos os dias da semana desde o café da manhã ao jantar –, seja tendo aulas de culinária marroquina. Uma aula que vai das 9 às 13:30, por exemplo, custa cerca de 35 euros. 


Nós não conseguimos comer lá porque o restaurante estava com horário alternativo durante o Ramadã (servindo apenas o jantar Iftar/Ftour mediante reserva) e só descobrimos isso lendo o bilhete na porta. Um dia eu volto a Marrakech e vou poder conhecer de perto o trabalho dessas mulheres na Amal, enquanto isso, espero que vocês aproveitem a dica. 

Aproveitamos que a Amal fica nas redondezas do Jardin Majorelle e do Musée Yves Saint-Laurent, para almoçar no Café Majorelle. Aberto todos os dias para café da manhã e almoço, na ocasião da nossa visita o café nos pareceu um oásis dentro do jardim. Com muito verde e o famoso e bem-vindo spray de água, fizemos uma refeição leve e gostosa antes de explorar um pouco mais desse que é um dos cartões postais de Marrakech. 



O menu é bom, cheio de sopas, saladas e pratos leves, com um toque da cozinha marroquina. Escolhi uma Salada de Lentilhas, acompanhada de tomates, queijo feta, abacate e nozes, enquanto o marido foi de Sardinhas Mchermel, acompanhadas de arroz. Aliás, sardinhas são comumente encontradas no Marrocos. Para arrematar, uma deliciosa e refrescante Citronnade, ou a boa e velha limonada. A conta deu 35 euros, podendo ser paga em dinheiro ou cartão. Uma opção bem honesta dentro de um ponto turístico do Marrocos. 

Para fechar as minhas dicas de onde comer em Marrakech, um indicação turística. Todo mundo diz que uma visita a Marrakech não é completa se você não viu a Jemaa El-Fna, praça icônica da cidade, de cima. Então lá fomos nós adicionar esse item ao nosso currículo de turista e procuramos uma opção honesta para bebermos alguma coisa e assistirmos a vida passar lá do alto. O nosso escolhido foi o Café Zeitoun, que fica de cara para o gol. Apesar de imenso, o café se mostrou bem agradável, com uma excelente vista da cidade, bem como de alguns pontos turísticos. 


Nós tomamos um chá gelado enquanto apreciávamos a vista a partir do terraço panorâmico. Dei uma vasculhada no cardápio vi que os preços eram bem satisfatórios, aberto desde a manhã até à noite (das 9 a uma da manhã), o café na Praça Jemma El-Fna tem menus de café da manhã com itens marroquinos a preços módicos. Já não tinha mais tempo livre na nossa programação, mas certamente vale a pena provar algo do cardápio por lá. 

Depois de toda essa aventura pelos sabores do Marrocos em pouco mais de 48 horas só me restou uma certeza: Eu quero mais!